sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Monólogo



Não sei o que quero dizer, apenas digo sabe? Se eu não falar fica pulsando aqui dentro sem parar e não para, na verdade não pra nunca, porque mesmo que eu não tenha nada a dizer eu quero dizer tanto. Quero dizer fica, quero dizer que tem tanta poesia no mundo e que muitas delas me lembram você, me entende? Como você poderia entender se eu nada te disse, mas às vezes o silencio pode dizer muita coisa também, será que você sente o que eu sinto? Será que você sente? Sentir é para os bravos, os corajosos, você riria disso. Você sempre ri dos meus devaneios e diz que sou prolixa, e eu sou mesmo, mas é que se eu não falo eu morro por dentro, sabe?  Não faça essa cara, essa cara que eu suponho que você faria se você estivesse lendo isso, porque eu nunca te mostrarei. Tenho músculos, tenho força, tenho coragem, mas não coragem dessas de dizer coisas do coração que devem ser ditas, embora eu diga o tempo todo para que as pessoas coloquem pra fora, ei eu também coloco, mas pra for- dentro sabe? Não, como poderia saber, se nem ao menos eu to te vendo e talvez nem verei mais, porque nossa vida é diferente e eu nem sei onde você está, e se está, se estivesse aqui eu te juro que falaria tudo aquilo que ta aqui dentro, vou falar, aqui vai:

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

(D)escrevo

Madrugadas pensantes

Descrevo
Escrevo na angústia de talvez não me lembrar mais de como foi
Desgosto
Do teu gosto não estar mais aqui se misturando ao meu
Desespero
Espero por poder te tocar de novo e de novo e de novo como se fôssemos um só
Descaso
Do acaso que nos encontramos e por acaso partimos de volta para nosso caminho
Desencontro
Me encontro na lua, porque sei que é a mesma lua para mim e para ti, aonde quer que você esteja agora
Desconforto
Me conforto com o pensamento do que passou, ao passo de que cada passo meu é para mais longe do teu
Descompasso
O compasso da música calma acelerava meu coração, a tua mão na minha mão, a areia e o mar, a-mar, ar. Falta de ar com seu suspiro mesclado ao meu gemido
Desalinho
Nessa bagunça de nossas pernas e nas coisas que perdi pelo escuro da noite, só me lembro do teu sorriso alinhado numa imperfeição tão detalhadamente perfeita que sorri agora
Desapego
E fico apenas com o que foi bom. Quantas paixões cabem numa noite? Quantas vidas se vive em poucas horas? E o que vem depois? Uma vida inteira. Pego sua lembrança e o resto se esvai
E vai
Vai
Porque a vida, meu caro

É pra ser desbravada. E destemida. Não temida.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Porta, Retrato.

Escrito ao som de Cícero.

Se pudesse descrever, seria azul. Me senti azul, tinha uma trilha sonora também, apenas um violão tocando ao fundo, com os acordes combinando com seu toque na minha pele, tão familiar. Queria poder descrever os olhos teus nos olhos meus, o silêncio da sua respiração arrepiando minha pele, o  calor da rua misturado com meu próprio calor. Nessa rua que, veja só, era a minha mas também não era mais, assim como você foi meu e também não é mais. Mais ainda assim a cor era azul – já desbotamos, você se lembra?

Não tenho como te explicar como senti, mas digo mesmo assim. Pense que você passou a infância toda numa casa e depois de anos volta para lá. Cada cômodo guarda uma lembrança boa, você deita no chão com os braços abertos e olha para o teto, os anos passam em segundos na sua mente. Você não quer sair dali, tudo é dolorosamente familiar  e tem um gosto bom, pouco importa se naquele mesmo cômodo você já tenha chorado, caído, sangrado – o que ficou impregnado naquele carpete velho foi só a mancha do sorvete preferido e as risadas perdidas de outrora. Mas ali não é mais seu lar. Isso de certa forma dói, mas veja só, sua casa é outra agora. Você é grande demais para aquilo tudo, não cabe mais ali.

É isso, me entende? É isso. Somos os mesmos, mas não somos iguais. Minha casa já não é mais a sua, já não é mais você, já não cabe mais. Isso que eu queria te dizer naquele pequeno espaço de tempo que dividíamos, sugando cada segundo como se fossem os últimos, e eram, e sabíamos que não seriam mais, foi como se houvesse uma brecha no tempo em que tudo pudesse ser permitido e não parecesse errado, como se a gente nunca tivesse errado ou que nosso erro fosse não tivéssemos tentado mais e mais.

E o depois? Pouco importa.  Eu me sinto tão azul agora, não quero saber que cores virão. Só queria poder retratar a forma tão bonita de que foi. Seriam acordes doces, seguindo o (des)compasso do meu coração. Seria aquele porta retrato esquecido no canto da sala, já desbotado, mas que de alguma forma colore tudo. Não consigo descrever essa intensidade, desculpe-me. Também não consegui olhar para trás quando fechei a porta. Melhor assim, melhor assim.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Carta.

(Porque a minha eu guardo só pra mim)

Tem chuva caindo lá fora. Tem gente se molhando, tem gente praguejando, tem gente agradecendo, tem gente chorando junto com chuva. 
Quanta coisa está acontecendo quando a gente acha que nada acontece. 
Tem gente trabalhando e sonhando e ir se juntar aos pingos.
 Tem gente se molhando, e sonhando em ter um trabalho. 
Tem gente indo, gente vindo.
Existe um tempo paralelo entre as coisas que a gente vive nesse momento e as coisas que acontecem, e que às vezes não nos damos conta.
 Tem gente trocando mensagem.
 Tem gente envelopando palavras, e tem palavras viajando dentro de caixas, que estão dentro de caminhões, que estão em cima das estradas, que estão sendo observadas por alguma pessoa da janela. Tem gente que não olha na janela. 
Tem gente esperando. 
Tem gente que não espera nada. 
Mas aí Caio me disse: “Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado”.
 E enquanto tinha gente esperando por algo que não vinha, gente se desesperando por algo que chegou, eu estava distraída, esperando quem sabe o relógio alcançar sua hora mágica. Ou então que apenas uma trégua da chuva. Ou ainda que o café ficasse pronto. Na verdade, então, eu esperava? Mas sem desespero.
 E então chegou. Envelopada. Atemporais. Sinergéticas. 
Mágicas, eu diria. 
Daquele tipo de magia que te faz sorrir no meio de uma terça qualquer quando você não está esperando nada, e te fará sorrir muitos anos depois quando sem querer você esbarra na sua caixa e ela se abre, e você enxerga. É uma pena que a maioria espere por respostas imediatas. Que pire nos sinais de que foi nitidamente ignorado. Que se expresse por bonequinhos de rosto amarelado.
 Não, não deixe de fazer – comunicar é sempre preciso. Mas existem muitas maneiras de fazer isso, e as melhores são aquelas que perduram mesmo depois que a bateria acabar, que o software travar. Aquelas palavras que você pode tocar, pode imaginar, pode até cheirar – ah o cheiro do papel... 
Ah, a caligrafia. Como é bom ter o contato com um pedaço que é só seu, de mais ninguém. A letra de alguém é como sua voz, única. E agora é minha também. 
Espero que nesse momento tenha gente recebendo cartas. E sorrindo à toa, sem esperar ou desesperar.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Era uma quarta-feira qualquer.

Eu quis te convencer, mas chega de insistir / Caberá ao nosso amor o que há de vir 

Já tinha começado nublado e chato, com sorrisos forçados na hora que precisava sorrir e textos sem emoção porque assim dizia o script. Não só porque era quarta-feira, mas acontecia como na música do Cazuza – no escritório sonhávamos que já era de tarde, todas as manhãs. 
Que se arrastavam. 
 Desculpas esfarrapadas na hora do almoço porque não estava dada a interações humanas, o mundo tinha tantos e tantos mistérios infindáveis para perder o tempo discutindo as mesmas pautas de sempre, nossas manias de complicar as coisas simples, a neura de ser preterida, a falta de confiança e de amor próprio e todos os mimimis que acompanham pratos de arroz-feijão-bife-salada-sobremesa. 
Preferi almoçar café e bolo de chocolate. Um pedaço enorme, dentro do limite que poderia pagar (teria eu comido o bolo inteiro se assim tivesse condições financeiras). Como o bom e velho ritual para dias que quero ficar sozinha com meus pensamentos (dias esses cada vez mais frequentes), sentei-me no mesmíssimo banco da mesmíssima praça, para observar aquilo que entre tantas coisas do mundo não me cansava nunca: o mar. Um cigarro aceso, de praxe. Rituais são rituais. 
Porém, antes mesmo que eu pudesse me afogar naquela turbulência que são meus pensamentos e lamentar cada minuto que se passava e me deixava mais próxima da volta, ouvi uma melodia. Calma e linda. Avistei você. Sereno e lindo, com seus dois cachorros, roupa largada e rosto despreocupado. Ao contrário do meu semblante, suponho.
 Você cruzou a minha frente com seu ar distraído. Não sei se foi o misto de sentimentos emaranhados na minha cabeça, o raio do sol que atravessou as folhas e iluminou seu olho castanho ou o mesmo lírio que continuava sozinho no meio do matagal, mas quando você passou por mim, num ímpeto te pedi para que tocasse uma música. Moço, tenho que voltar para o trabalho, salva a minha tarde, canta pra mim? 
Você não me julgou nem me olhou com estranheza, apenas sorriu e começou: Abre os teus armários, eu estou a te esperar / Para ver deitar o sol sobre os teus braços castos/ Cobre a culpa vã, até amanhã eu vou ficar / E fazer do teu sorriso um abrigo.
Eu sorri. Você também. Sua voz era linda, seu cachorro fofo. Você continuou. Cantou também Janta e arrebatou com Doce Solidão
 Foge que eu te encontro, que eu já tenho asas. E assim foi. Eu tinha que voltar, você tinha que ir, me disse que era Léo, e isso é tudo que sei. E que o meu refúgio preferido é também o seu palco. 
E que você salvou minha tarde. Agora, aqui envolta das paredes sem graça e textos técnicos, me pergunto se te inventei, se não foi algo que eu li ou um ato desesperado da minha mente para devolver a cor do meu dia. E secretamente sei que meus momentos de refúgio serão também de espera, quiçá de esperança. Quem sabe eu precise ser salva novamente e você apareça. 
Quem sabe.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Da série: diálogos que escondi na gaveta

Abre teus armários, que eu estou a te esperar

Risadas abafadas. 
- E se eu me apaixonar menininha?
 Pausa. 
- Coma açúcar e ouça músicas, ajuda. 
(...) 
- Você não tem coração?
 - Ah eu tenho. E ele é grande e bobo. Mas acontece que depois de um certo tempo a gente vai cuidando para saber quem entra nele. Muitos podem sentir o calor que ele emana, mas a entrada é permitida para poucos. Não, baby, não me olhe assim. Acontece... Acontece que eu já mantive a porta aberta, mas tem gente que entra e bagunça tudo, e você sabe, eu odeio arrumar a casa. 
- Você não pode culpar o próximo pela bagunça de outrem. 
Pausa.
- Sim, eu sei. Mas cansa. E eu não quero mais um objeto de decoração. Quero que seja de coração. 
- Você tem um chocolate? 
- Divide comigo? Açúcar sempre ajuda. (música tema de fundo, pôr-do-sol, silêncio. Sabe-se lá quando se inicia a bagunça).

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Dê lírios.


Ela disse que não gostava de rosas. Como iria gostar de algo que todo mundo gosta? Ela não era igual a todo mundo. Lírios, esses eram seu preferidos. Coloridos no meio de um jardim qualquer, enfeitando a via de algum bairro movimentado da cidade, espalhando o perfume para aqueles que possuem o olfato mais sensível. Ela ouvia bandas de que eu nunca tinha ouvido falar e se virava de cabeça para baixo para ter outra visão do mundo. Baby, quero te dizer que não precisa colocar suas pernas para o ar, você já tem uma visão diferente do mundo. 


Uma visão única, porque é sua, carregada das coisas bonitas e leves que você ama e que talvez quase ninguém conheça. Que bom poder conhecer um pouco do seu mundo. Pensei que não gostasse das rosas por causas do espinhos. Sabe, é algo bonito, mas as pessoas podem se machucar. Isso não parece um pouco com o amor? Será que é por isso que as pessoas dão rosas, como se fosse uma metáfora de aviso? Entrego-te toda essa beleza, mas segure com cautela, porque se o espinho entra, e pior, se ele permanece no dedo (ou no coração), dói muito. Deixa cicatrizes até. 


 Uau. Talvez se as pessoas soubessem disso quem sabe se machucassem menos. Por isso você gosta de Lírios? Mas quero te contar um segredo: existe neles um pó amarelo que pode fazer mal para a vista. Tipo o amor também quem sabe? Ah, mas você me disse que precisamos ser cega ás vezes. E encostar nos espinhos. Sem dor, como saber o sabor das alegrias? 


 Estava sentada esses dias em algum lugar e vi um lírio. Ele estava sozinho, numa imensidão de verde, e é como se emprestasse a vida para aquele espaço. Pouca gente reparou, talvez porque naquele mesmo jardim tivesse rosas e amor-perfeito, emoldurando amores imperfeitos que se silenciavam sob o sol ameno do fim de tarde. Mas eu vi o lírio, e entendi: ela não é igual a todo mundo. Nem todo mundo a vê. Talvez seja preciso virar de ponta-cabeça para tentar entender, ou talvez não, porque certas coisas não são feitas para ter sentido, mas para serem sentidas.