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domingo, 9 de agosto de 2020

e eu não sei.

 então eu estava editando fotos e comecei a lembrar que num tempo - que mais parece outra vida, e é mesmo - eu costumava escrever. com todo meu amor. com todo sentimento sem nome que brotava em mim enquanto eu escrevia. 

e eu parei, não sei o motivo. talvez porque a vida agora é outra. talvez porque nessa vida eu não tenha mais muito tempo para gritar palavras mudas num papel. ou arranje desculpas para não fazer, ou quem sabe faça de outra maneira. enfim.

resolvi dar uma olhada nesse velho blog. foi intenso revisitar sentimentos escritos, ainda que desbotados por esse tempo, por essa outra vida. resolvi tentar logar, e para a minha surpresa, consegui. foi como se um portal tivesse se aberto em minha frente, e agora estou aqui, falando sobre nada para ninguém, embora fale muito para mim mesma.

uau. me sinto até eufórica enquanto as palavras saem dos meus dedos frenéticos nesse computador, preenchendo espacinhos em branco para dizer algo, ainda que esse algo seja sobre nada.  há uma grande possibilidade no nada.

e antes de escrever parecia que eu queria dizer tanta coisa, que agora me fogem - ou será que me encontram?

não sei. quando comecei esse blog, comecei falando que não sabia. e continuo não sabendo. não saber é o que me motiva, eu acho. 

mas a vida agora é outra. que bom. porque o tempo passa, esse cliche é muito verdadeiro - assim como tantos e tantos outros que deixam de ser cliches quando a vida vai passando.

e eu não sei. escrever é egoísta e requer coragem. 

e eu não sei, mas talvez continue. meu coração bateu mais forte. 

eu não sei, e nunca saberei, e isso me faz mais potente.

eu não sei

e isso é uma puta sabedoria.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Figura de linguagem.


Eu ia deixar pra lá. De novo. Ia falar que amanhã eu escrevo, mas amanhã iria passar um café, fumar um cigarro, lembrar das fotos, alimentar os animais, viajar na janela, mais fotos, trabalhos, contas, janelas, iria escrever de noite, juro dessa vez, mas acabaria como em todas as outras noites de todas as outras vezes: deixando para lá.

Há dias que adio soltar o verbo entalado na minha garganta. Esse verbo indicativo de um pretérito (im)perfeito cortante. Ou seria um verbo significativo do futuro do presente? Eu não sei. E é por isso que deixo sempre pra lá: Porque eu não sei.

Menos hoje. Solto-o, de um jeito meio torto, esse verbo que não sei. Talvez nem seja verbo seja apenas um substantivo sem importância ou uma locução que não me conduz; mas me paralisa. É um adjetivo.

É amor ao invés de verbo? Amor não é verbo?

Não, não é nada. Ou é tudo, por isso deixo para lá.

Mas fica entalado na garganta. Talvez não seja verbo, nem substantivo, adjetivo nem porra nenhuma. Talvez seja só você.

Mas quem é você? Você é tantos. E ninguém ao mesmo tempo.

Eu tento ser plural. Juro. Mas antes do ponto final eu já me torno singular – não por não querer ou não sentir. Eu sinto, muito, no presente. Mas depois que o agora torna-se o já foi, eu deixo para lá. Você e isso tudo.

Eu te amo. Naquela hora. Depois até amo, mas tudo bem.  Depois é depois. Eu sou agora, esse é meu verbo. Mas e agora? Estou aqui, tendo devaneios sobre nada, sobre tudo que está na garganta mas que eu não falo, porque no fundo não me importa se haverá um nós.

Só não quero ter nó na garganta.
Nem verbo.
Nem você.


Vou deixar pra lá. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

m a r ç o

As águas do novo mês caem pela minha janela. Elas lavam, elas levam – foi-se o confete, a purpurina, não há mais batuque nem corpos quentes tentando disfarçar o frio da alma rasa. Já não é mais carnaval. Já não é. Passa rápido.

Estamos em outra estação. Tempo em que coisas secam para que outras floresçam. Mas como ser flor no meio de tanto coração de pedra? Não sei. Não sei ter coração de pedra – como disse algum poeta, o meu sangra todo dia. E pulsa. E sente. E não disfarça – sendo carnaval ou não, eis aqui um coração gritante, que ecoa nas paredes tal qual aquele beijo,  mas que não aguentou a quarta-feira de cinzas: desbotou.

Já é março. Fevereiro foi um poema torto falado com voz mansa. 
Mas eu não sei rimar.
Já é março e eu que não tenho coração de aço, deixo


ele sangrar. 

sexta-feira, 3 de março de 2017

devaneios repentinos de uma madruga que nem sei

teu beijo ainda ecoa na parede do meu pensamento. boca. ainda sinto as rachaduras ásperas e macias da tua boca grande ressecada pelos insuportáveis quarenta graus que faz na rua. você é verão baby, e eu; o que virá? não sei, mas me vi através da sua retina negra junto com as paredes desse quarto desse pensamento dessa boca áspera que a minha anseia tanto no meu seio ombro pele mãos e


e tanto faz se vira, se verão, se virá – veremos ou não; sentiremos mais de uma estação ou apenas mais algumas tardes quentes, afinal, no final, era carnaval.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

sorriso ao sono



É que tenho tanto a dizer mas penso penso penso e não digo. Porque não digo não sei dizer, mas já pensar em dizer é uma maneira de dizer sem precisar dizer nada mas dizendo tudo entende o que eu digo? como entenderia seu eu não disse nada. como entender a amplitude do nada e do tudo ou todas essas coisas que eu escrevo só pra mim mesmo ou para mais alguma alma que vai vagando entre redes sem fio de internet, perdida entre ao muros invisíveis que a rede social cria, um monte de pessoas com celular de touch screen mas sem toque sem calor da pele sem energia de abraço sem tanta tanta tanta que eu penso em não digo, mas penso e pensar me pesa às vezes mas tento não deixar esse tanto ser pesar, apesar de

O que fazes aqui? Por que está passeando entre meus pensamentos? O que queres aqui, talvez um pouco de alma? São só palavras perdidas escritas numa madrugada de domingo solidão e barulho de chuva. Que queres ainda por aqui? Que queres saber de mim? Não sou nada daquilo que você pensa enquanto lê coisas que eu penso, ou melhor, sobre as coisas que eu penso e não falo, mas se você está aqui, você também não fala, e estamos ambos presos nesse muro invisível da internet, computador, festas com copos de plástico e sorrisos esfumaçados pelos neurônios queimados em cada festa que a gente está mas não queria estar, mas mesmo assim estamos, e quando estamos, não somos
Ou somos? Assumimos ou sumimos? Você já sumiu?


Não. E não vou te dar as respostas que você tentou encontrar. Sou a própria pergunta. Soul. Do you know, baby? Sabe nada. Porque cada palavra aqui vem carregada de muitos pensamentos. Eu não sei falar inglês, sorry darling. Entre as linhas. Entrelinhas.


Entre.
Eu já perdi a linha


quem de nós
desatará os invisíveis nós?




quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Uma saudade gritante que tive que gritar

É que em alguns dias acontece com mais força que nos outros. Chega no meio do nada e me invade como uma onda enorme que surge no oceano e de repente te engole, te sufoca, te faz mergulhar em um momento de desespero até que você consiga emergir e ver que sim ainda existe o horizonte, ainda tem ar, que os dias ainda são. Mas esse pequeno momento de sufoco dói. Dói na alma. É isso - eu sinto a sua falta no meio da minha alma, que às vezes grita mais alto que nos outros dias. Queria poder gritar isso para você. Saudade dói. Saudade dói pra caralho - em alguns momentos, como exatamente agora, mais que em outros.
Lembro do seu olhar sempre iluminado e cheio de histórias secretas. Indagadores e apaixonados pela vida, assim como você. Sei que estão opacos neste momento, sei que tem sido dias difíceis e intermináveis, sei. Só queria poder te colocar no meio do meu braço e te sentir, queria que você sentisse todo esse amor que só aumenta com todo esse caos. Queria que não tivesse esse caos - mas ele acontece, por motivos que a gente não entende agora, mas acontece. E não nos resta nada há não ser a espera. Eu espero - e ás vezes me desespero pela espera - mas espero. E ela vai acabar um dia. Esse dia será lindo - quando eu puder olhar de novo em seus olhos e você olhar para os meus, quando nossos olhos transbordarem toda essa água, mas por outro motivo. Todos os dias que passam - alguns mais lentamente e difíceis que os outros - eu penso que está mais próximo. Não sabemos sobre tempo. Não sabemos sobre o futuro. Mas sabemos. Você sabe o que eu digo - no fundo no fundo, não poderia ser diferente.
Nesse espaço infinito que há de ter fim, nesse lacuna que estamos vivendo, temos que ser fortes. Temos que ser. Há de acabar.
Te espero. Penso em ti. Todos os dias, penso em ti. Que chegue, de alguma forma, até você.
(Mas nesse exato momento só queria dizer que minha alma grita desesperadamente de saudades. Imensamente).
Me lembro daquela tarde de sol. Você na janela e a luz do final de tarde em você. E dói. Mas seguiremos. Eu daqui e você daí, enquanto tiver que ser. Ainda riremos disso tudo um dia. E faremos poesia. Já estamos fazendo, você sabe. Já estamos.




quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Palavras soltas que me libertam numa tarde qualquer



"Há um descompasso no tempo". Luzes e sombras dançam no papel ainda em branco - Logo, não será mais. Estará preenchido pelas minhas próprias luzes e sombras representadas por palavras. Palavras: Como são poderosas. Preenchem vazios de folhas de papel e de coração de carne, escondem significados por trás da caligrafia torta, podem ser diretas como flecha certeira ou quente como brasa do fogo. Servem para uma coisa ou para outra, mesmo que sejam iguais. Mal ditas, palavras soam malditas para quem não tem ouvidos atentos. Atentam, enfeitiçam como magia de bruxa apaixonada, prendem mais que nó de marinheiro, transformam a solidão e o nó da garganta no acalento do 'nós', apenas por um detalhe. 
Luzes e sombras continuam a dançar sobre a folha de papel já não tão em branco, mas o que dizem essas letras que preenchem? Indagações, devaneio, entenda como quiser. Ou então, faça-me um favor: não compreenda. Não entenda. Jamais saberás o real significado. Jamais saberás por que sentei-me aqui, embaixo dessa árvore, para escrever coisas que não são para serem compreendidas. Nunca saberás por que fumo ou que minha pele se arrepia - de frio ou por outra coisa, como há de saber? - enquanto digo um monte de nada que me diz tanta coisa e eu mesma nado nesse mar confuso de palavras luzes e sombras, folhas já não mais em branco e tempo que passou. Continua passando, ao passo que eu continuo dizendo e não dizendo.
Essas palavras não devem ser lidas.
Devem ser sentidas.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Deep Blue Sea



Seus olhos de mar me perturbam desde que os vi pela primeira vez. Eu, que me julgava bom marinheiro, tive medo de  navegar – Talvez porque relutava em aceitar que era hora de tirar o navio do porto, içar velas e me jogar em teus mistérios. Não, não me julgue – é sempre difícil enveredar em águas que você não conhece, ainda mais quando se sabe que são profundas e intensas como você. Alma de mar e pés na terra, assim como eu. Se sou espelho, como me enxergas? Será que vê além, será que seus olhos profundos conseguem perceber o profundo que há através dos meus mundos? O que será que será?

Não sei, eis me aqui, navegando. Soprei a vela e na escuridão pude enxergar com clareza – Na brisa fria da noite, da solidão, na brisa fria que vem do mar, aceito minha condição. Vou seguindo sua imensidão sem saber pra onde nem porque, mas vou. E agora que já tirei os pés da terra e admiti minha condição, me deleito com o não saber o rumo das coisas, não saber nem se há coisas entre nós. Nós de marinheiro costumam ser fortes. Você abraça como um nó de marinheiro que não consigo desatar.

Você chega em meu pensamento como ondas em dias de ressaca – ultrapassa os limites que criei, entrega tesouros escondidos em suas profundezas e depois volta para sua calmaria. Eu tentava controlar as ondas, mas como bom marinheiro deveria saber que não se controle o mar, aprende-se a navegar com ele. Ou então, aprecia de longe, sem saber onde ele poderia levar. Agora que me joguei, agora que aceitei, continuo não sabendo. Não sei se há coisas entre nós, laços e abraços, sei que há mar entre nós e que talvez amar entre nós seja juntar nossas águas sem forçar, sem falar, sem.
Apenas sentir.


quarta-feira, 20 de abril de 2016

palavras soltas talvez sobre você mas só talvez.



Não me importo com a estética que terão essas palavras. Não quero que elas pareçam ser algo que não são. Não quero que elas sejam agradáveis, mas sim sinceras.  Não quero que cada letra seja meticulosamente pensada, quero apenas que elas sejam. Não quero obedecer regras de português quero falar sem vírgula sem aspas sem pausa porque não tenho vírgulas nem aspas nem pausas quando quero falar sobre você. Eu nem quero falar sobre você quero mais é que você se foda – não, minto. Quero mais é que você me foda, assim sem pudor mesmo porque cansei de ter pudor para falar coisas de carne e alma, cansei de ter pudor para sair na rua ou cobrir o corpo ou me preocupar e se, e os outros, e por que e e e e e. Cansei  dessa letra E que se intromete em cada pensamento meu quando penso que estou cansada de pensar em você.  Cansei de você e estou tão cansada que deitaria em seus braços macios e assim em silêncio encostaria meu nariz no seu braço e respiraria bem fundo para sentir o cheiro seu e lembrar do cheiro seu quando eu estiver cansada de estar cansada de você e quiser deitar no seu braço mas acabar por falar palavras sem sentido nem estética nem padrão sobre coisas que eu não entendo. Eu não te entendo. Talvez a questão nem seja te entender – eu não entendo esse efeito rápido, intenso, fugaz e visceral que tens sobre mim, não entendo teu beijo voltar na minha cabeça em momentos banais do dia como na fila do mercado ou enquanto coloco ração para meus gatos que parecem entender muito mais do que eu entendo sobre tudo isso.


A agonia de sentir agonia. Sentir. Viver é permitido mas sentir é perigoso me disse uma vez certo poeta, mas qual seria o sentido de viver sem sentir? Por isso mesmo é perigoso, sentir te faz chorar ao ver algo bonito bem no meio da rua ou escrever palavras soltas e sem sentido mas com muitos sentimentos sobre querer te ver na rua e chorar porque era só algo bonito que lembrava você.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Desatinos que surgem durante a madrugada de domingo



Ainda é difícil falar sobre você. Pensar em você. Existe um você preso na minha garganta de uma maneira que não consigo nem engolir, nem colocar pra fora. É difícil, veja só, escrever para você. Logo eu, logo eu, tão tagarela sobre tudo, sempre achando que a vida é um papel em branco sempre disponível para contar uma história. Mas não sobre você.  É como se tua voz rouca rompesse o silêncio comum nas madrugadas do meu bairro calmo. É como se você fosse chegar num rompante, com o mesmo sorriso largo que num sábado qualquer atravessou a minha sala. A sala já não é mais a mesma, nem o bairro, nem você. Eu nem sei mais quem você é, ou o que você é – não sei o que faz nessas tardes abafadas de início de outono, se ainda toma o mesmo café preto com uma colher bem rasa de açúcar enquanto fala de coisas profundas e misteriosas do mundo.  Não sei se agora despejas seu hálito quente no pescoço de alguém, abafando suspiros com mordidas no travesseiro – e nem quero saber. Não quero saber de nada disso. Não quero saber que aquela sala agora é habitada por qualquer pessoa que não nós, talvez por um casal sem graça ou duas senhorinhas que fazem tricô religiosamente às três da tarde, não quero saber que em algum lugar daquele estado frio e sem alma a sua alma quente habita seu corpo também quente, ao passo que o meu está aqui, também com uma alma quente, em outra sala, em outro canto, despejando frases sem sentido, mas que me fazem sentir que eu não quero saber mais nada de você, mas ao mesmo tempo ainda está esse você entalado na garganta, nas três cartas que tentei te escrever e não conclui, na blusa velha que está já empoeirada no mesmo lugar que você deixou da última vez, porque eu não consigo tirar – você da garganta, as cartas do caderno, a blusa do canto, os questionamentos da cabeça, as lembranças do coração. Amor não dói. Amor só é bom se doer. Dois poetas e duas certezas, enquanto eu só tenho uma: Amor.
Mas a minha incerteza paira sobre as suas coisas que eu não quero saber.
Ainda é difícil falar sobre você. Pensar em você. Engolir e digerir você.
Mas, no final das contas – e você riria, porque sabe que eu não sei fazer contas – eu falei sobre você. Escrevi sobre você. E, quem sabe, irei soltar esse você preso na minha garganta, nova sala, blusa no canto empoeirada e

E.

domingo, 9 de agosto de 2015

.


Eu não entendo. Eu não entendo. Eu não entendo.
E isso me basta.

Se entendesse, estaria aqui no meio dessa sala colorida (dolorida?) desentendo-me  do tudo ou nada ou tudo que é você? Sei como tu chama mas não sei qual brasa acende a tua chama se ela é breve quente leve não sei quem tu chama, mas talvez, talvez, queira que tu me leve desse pesado nada que cisma em chegar num domingo de manhã e não me deixa dormir porque preciso enxergar, olho nas janelas ainda adormecidas de sonhos que não se pode dizer, mas vejo você, sem entender, cadê? acendi mais um cigarro – você não entende o bem que esse mal me faz – mas você não entende e eu não entendo, traguei e nada trouxe, te fumaria até a chepa mas você não faz bem pro meu pulmão porque é ventania mas sufoca quero ar quero tudo e quero nada porque há no nada muita coisa, quero nadar em você e mergulhar em cada poro do seu corpo e sentir o cheiro do teu cheiro no meu cheiro e não entender nada disso

Não quero que se conclua. O que concluí então acaba. Não quero um fim do que nem começou por que eu não entendo,


quero um enfim dito entre um suspiro  manso no meio da sala dizendo que quer à mim porque também não entende e tudo isso é louco loucura cura porque chamar só de amor é um fogo raso que se apaga num sopro

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

tempo tempo tem?

Passará, em cada despedida...


Me conforto em saber que o tempo vai apaziguar isso tudo que está emaranhado aqui dentro. Só que agora o que sinto é urgência, urgência de ti, dos teus sabores, do teu suor, da tua pele. Faz tão pouco tempo que ainda sinto você aqui do meu lado, ao mesmo tempo que sei que demorará tanto tanto tempo para poder de fato ter você de novo. Se tiver. Tempo, tempo... Tão relativo. Passou voando enquanto estive com você, agora se arrasta ao pensar que não sei quando te verei de novo. Vivo dia após dia no meio do caminho entre querer lembrar de tudo e querer que o tempo avance e arranque essa agonia de dentro de mim. Me confundo entre a vontade de reviver tudo na lembrança e a necessidade de que as memórias se tornem cada vez mais desbotadas, até que não passem de um suspiro em um domingo qualquer.

Você veio como uma esbarrada do dedinho do pé no canto do sofá:  inesperado, me fez esquecer quem tinha em mente enquanto andava distraída, me despertou e agora dói, dói tanto que já nem me lembro mais o que fazia antes desse encontro furtivo.

Foi rápido, e agora é algo latente, pulsante, mas como toda dor-amor irá passar. Talvez sozinha, talvez precise tropeçar em alguém, mas o que é certo é que vai sumir, hora ou outra.
Coleciono momentos, tudo é efêmero, tudo é líquido, nada dura, e com isso tenho medo de endurecer também.

Durará quanto tempo esse tempo que não passa, passará quanto tempo essa dor que corrói, tornar-se-á preto e branco essa nitidez que me ofusca a visão no meio da noite ou viverá mais altiva nos sonhos que me perturbam até de manhã?

Tic Tac.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Parágrafo único. Das palavras não ditas.


Num mundo de palavras incompreendidas, o silencio é a melhor coisa a dizer. Se fechar em um próprio mundo não significa estar fechado para as relações humanas, mas sim estar cansado de ver humanos se tratando igual a animais. Nesse mundo de gente mecânica, pareço apenas mais um andando em piloto automático, cumprindo metodicamente as obrigações de cada dia – acordo, miro minha cara no espelho, suspiro suavemente, escolho uma roupa, escovo meus dentes, esboço um sorriso, como, mijo, suo, fedo, sinto frio, exatamente igual a todo mundo. Mas a diferença é que meu coração não apenas bate, ele pulsa. Ele não apenas me da a vida, não apenas faz com que meu sangue seja bombeado num ritmo frenético para as veias e órgãos do meu corpo. Eu também sou um coração batendo no mundo, mas todo o meu mundo é coração. Exatamente por isso, ás vezes ele me cala, e faz sair da minha fala somente aquilo que é necessário. Palavras ás vezes são como as veias bombeadas pelo sangue – saem da minha boca apenas com o propósito de me manter vivo nesse mundo. Nessas horas, meu silêncio de palavras contidas na minha boca seca denuncia a sede que tenho e parece insaciável, a sede de ser um ponto colorido na multidão, de não ser o único a reparar nas gostas de orvalho que ficaram presas na plantinha esquecida ao lado do ponto de ônibus ou nas olheiras arroxeadas que entornam o rosto da senhora com olhar vago. Será que ela também sabe o que é deitar a cabeça no travesseiro, olhar por horas para o teto e se perguntar se isso tudo faz mesmo sentido? Será que ela também está cheia de se sentir vazia, de fazer parte desse vazio imenso representado nas multidões? Aos poucos, os dias vão ficando mais amenos, volto a sorrir outra vez. Sinto falta daqueles que outrora compartilhavam da mesma agonia que eu, os procuro. Não falamos, fazemos de novo do silêncio a compreensão desse mundo louco que todo mundo olha, mas poucas pessoas enxergam. Procuro o amor que deixei de canto por julga-lo impossível ou desmerecedor do meu afeto, e como sou totalmente coração, me entrego. Amar é se jogar de cabeça no abismo, sem saber se alguém estará de braços abertos para te segurar ou se você dará com a cabeça no chão duro de concreto, e por mais que tenha batido cabeça por tantas vezes acabo por sempre me jogar. Assim como me jogo no mundo, nos dias, nas palavras que não digo e nas ligações que não faço, no acordar e fazer a barba meticulosamente esperando por nada, é aí então que tudo acontece. E tudo tem um sentido novo outra vez. Silêncio, silêncio, porque nem sempre as palavras são necessárias. Nem sempre a companhia é estar ao lado. Nem sempre.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Um texto sobre nada.

Mas na verdade o nada é uma palavra esperando tradução

Comecei a escrever querendo dizer nada. Não tinha nada que valia ser dito, mas ainda assim, precisava escrever. É algo que pulsa dentro de mim, algo que precisa ser jorrado para fora, não consegue ficar preso. Mesmo quando quero dizer nada, absolutamente nada, não consigo ficar quieta. Talvez seja esse o meu mal: mesmo quando há vazio, quero transformar o vazio em algo. Não consigo deixar ele somente lá. Vazio pesa demais, e colocar ele pra fora, mesmo que seja assim, sem nexo, sem assunto, sem viés, deixa tudo mais leve.

Aliás, as coisas não tem nexo. Já parou para olhar ao redor? Outra coisa que não consigo ficar sem: questionar. Indago tudo: por que a gente dorme? Por que existem roupas feias e bonitas, se o intuito é só cobrir o corpo? Por que doce é sobremesa e não ao contrário? Por que dinheiro é papel e não se fabrica a reveria? Por que música boa não faz sucesso? Por que beleza vem primeiro? Por que celebramos a estupidez?

Não sei olhar as coisas e não questionar. Não encontro resposta para tudo, é claro, mas o que me move são as perguntas. Aliás, movimento é o que me alimenta; mesmo se estou gastando um domingo inteiro de pijamas fazendo nada, estou em movimento. Sou um movimento. Sou constante. Mesmo que seja só dentro de mim.

Dentro de nós, aliás, é uma coisa muito louca. Tenho um prazer enorme em ficar horas parada em um lugar, observando os trejeitos das pessoas e pensando o que será que está movendo elas. O que será que elas estão pensando? Qual batalha está travada ali dentro? Quantas estão parecendo ser fortes, mas na verdade só queriam desabar? Quantas estão desabando, quando na verdade deveriam estar sendo fortes? Vejo os casais e me pergunto qual será o quase-amor que tiveram que abandonar para que aquele amor se consagrasse. E, quantos daqueles, estão presos há algo que chamam de amor, mas não passa de desespero?

Amor. Outra coisa que me confunde. Amo tanto, amo ninguém. Quero ele livre, quero ele solto, quero ele amarrado em mim. Como se diz eu te amo hoje em dia? Como se ama hoje em dia? Se ama igual. Era para ser assim, ou não, não sei. Não sei quem inventou regras para determinar como se ama, ou como se veste, ou porque doce não é prato principal ou então porque não se imprime mais dinheiro.

Não sei. Não queria dizer nada... só que eu não gosto do vazio. E que gosto do amor, acho que queria dizer isso também. É só que minha cabeça é muito pensante cara. Muito mesmo. Não vou terminar porque afinal de contas nem comecei. Só queria dizer que... ah, esquece vai. Continua. Todo dia igual.

Só preciso contar que hoje almocei uma sobremesa.

E acho que amei você por uns minutos também. Ou mais, quem sabe.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Uma história (i)real.

Eu ouvindo o Rio.


Antes de começar a contar essa história, preciso avisar que ela é uma história inventada. O que não significa que cada linha que escrevo aqui não seja real. Também preciso avisar que não sei contar histórias, e justamente por isso insisto em contá-las. Escrevo aqui com o coração.

Quem me contou essa história foi o rio. Ele sussurrou em meu ouvido enquanto estive deitada em cima de sua pedra, com as mãos mergulhadas em sua água gelada. 

Ele não soube me precisar há quanto tempo foi, porque o tempo para o rio é diferente do tempo para nós. A história começa com uma menina, chamada Indiferença, que aos dez anos foi abandonada pela mãe no leito do rio. Nessa época, seu nome era Luz, e foi justamente por conta dessa luz que irradiava que acabou na escuridão sem fim da mata vazia. Acontece que a mãe de Luz amava cegamente seu homem, que não aguentava competir com o brilho que vinha da menina, pedindo então para que a mãe escolhesse entre os dois. A mãe, cega de paixão, achou que não poderia viver sem o homem, e cedeu aos seus desejos. Assim, luz tornou-se indiferença, em nome de uma loucura de amor. 

A menina passou então a odiar o amor. Sozinha, sem saber o que fazer, entregou-se à natureza, e foi acolhida pelo rio, que a amou no primeiro instante que suas lágrimas salgadas se misturaram à sua doce água. Com o tempo, desaprendeu a ler e escrever, pois não precisava mais dos ensinamentos dos homens, apenas dos ensinamentos dos Deus da natureza. Conseguia da terra tudo que precisava, conhecia os animais, entregava-se ao rio. Também o amava, pois repudiava o amor dos homens somente. 

Dez anos se passaram e Indiferença cresceu. Tornou-se bela, com a pele morena do sol, longos cabelos encaracolados e um brilho no olhar que carregava de quando ainda era Luz. Passou a atrair homens de diversas idades, solteiros, casados, ricos e pobres, que iam até o rio para tentar encantar a Indiferença. Ela, que continuava odiando o amor, se deliciava em seduzi-los e depois abandoná-los, sumindo por entre o verde do mato e os deixando perdidos ao leito do rio, que quieto agradecia por cada homem que Indiferença acabava por dispensar. 

Até que um dia, aconteceu. Indiferença não conseguiu ficar imune, e ali mesmo no leito do rio se entregou, de corpo, alma, pele, paixão, desejo e amor. Se banhou em águas desconhecidas. Pela primeira vez, quis deixar a mata, o rio, o seu berço. Pela primeira vez na vida, Indiferença entendeu a mãe. 

 Porém, o rio, que sempre amou incondicionalmente a menina, que sempre a acolheu em suas águas calmas, não conseguiu aceitar. Em sua fúria, afogou a menina. Queria transformá-la em pedra, para que ali ficasse para sempre. Acontece, que as forças da natureza são sempre justas. Naquele dia, Indiferença morreu sim, mas não virou pedra, virou flor. A mais perfumada de todas. Um dia foi colhida e por um casal de namorados e teve suas pétalas jogadas na água do rio, que teve que suportar seu perfume enquanto assistia lentamente as pétalas viajarem por sua água até se perder no mar. Desde então, aquele rio nunca mais foi calmo, sua correnteza e forte, avassaladora, nem mesmo suas pedras ficam ali para sempre.

 - Por que? Lhe perguntei.

 - Para aprender, me disse ele. Nada agora fica preso em minhas águas, para que eu entenda que o amor tem que ser solto. Tem que fluir. Nosso maior erro é querer aprisioná-lo, fazer com que ele seja pedra. Por causa dessa nossa obsessão, acabamos por matá-lo. 

- E a mãe da menina?, voltei a questionar.

 - Não foi feliz, me disse o rio num sussurro. Ela também teve sua lição. Ela não queria aprisionar o amor, mas queria abdicar de tudo por causa dele. Abdicou de uma parte sua, de um pedaço seu no mundo, por causa de um amor. E agora vive só uma meia vida, procurando por Luz e achando Indiferença em todos os lugares. 

Fechei os olhos por um momento e pensei nas minhas próprias histórias. Por vezes, fui rio, por vezes, indiferença, por vezes, a mãe da menina. O que esqueci foi, de muitas vezes, ser eu mesma. Agradeci ao rio. Fiz uma concha com as mãos e bebi daquela água: queria que essa correnteza fluísse dentro de mim.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Love is a verb.

Love ain't a crutch, It ain't an excuse


Amor é um verbo. Difícil de conjugar. Perfeito, pretérito-mais-que-perfeito, composto, futuro-do-pretérito, presente, imperfeito. Por vezes, soa como uma onomatopeia – disfarçamos ele com palavras toscas para deixar mais suave aquilo que já era para ser dito por si só. Ele parece uma ironia também. Tem gente que o trata como um substantivo qualquer, outros querem que ele seja o sujeito da ação, mas ele é a própria ação, não o deixe estagnado, não coloque três pontos, não seja ridículo de termina-lo com um etecetera. Eu não sou boa em conjugação verbal – parece que ele é o futuro de um passado perfeito que está preso num futuro imperfeito, sem interjeição.

Busco sinônimos, encontro anônimos. Disfarço com metáforas, recebo como resposta a antítese daquilo que digo sentir. Faço dele uma hipérbole, exagero, drama, mas ele volta sempre como uma sinestesia: no cheiro que me lembra uma música que me lembra um gosto que me lembra uma pele que me lembra um som que me lembra você. Assim, sem vírgula, ou exclamação – por hora, questionamentos, agora, ponto final.  Um paradoxo que tenta aproximar nossas ideias contrárias, redundante porque digo sempre o mesmo. Que não quero. Que sou analfabeta. Que cansei. Que não conjugo, que ficou no pretérito, que não pretendo futuro, que foda-se o presente. Usei um palavrão, que destoa com o tom das metonímias que uso para complicar aquilo simples de dizer. Porque o amor é verbo, é palavrão, é sujo, eloquente, quente, quente, quente.

Estou me contradizendo: amor não tem tempo. É um verbo puro. Amor apenas é. Do verbo ser mesmo. Assim, simples: amor é. Amar é. A gente é. Não era pra ser, é. Porque (tudo junto, conforme mandam os bons professores de português) não tem erro. Não existe era amor, foi amor ou será amor, já era amor antes mesmo de ser.


Não sei. Estou prolixa. Mas espero que entenda minhas entrelinhas.

domingo, 13 de outubro de 2013

Filosofia vira-lata.

A liberdade é um cachorro vira-lata - Millôr Fernandes


Os de raça são todos iguais. Cara de um, focinho de outro. Eles precisam de artigos de petshop de grife para manter a compostura. Só comem comida com pedigree. Andam em bandos, sempre com uma trupe da mesma raça, falando as mesmas coisas banais. Sempre o mesmo tom de latido, não mijam nem pensam fora da caixa. Engomadinhos, são criados  em apartamentos caros na beira do mar. Pra manter seus músculos fortes e o padrão da raça, correm no final de tarde, bebem água mineral e fogem da boêmia. Só farejam cadelinhas com pedigree legítimo igual ao seu – mas como todo bom cachorro, cruzam muito por aí. Voltam ao seu apartamento, se olham no espelho orgulhosos do que veem, não se importam que são iguais ao da mesa raça. Postam foto no instagram e vão dormir satisfeito por fazerem parte daquele quadrado único.

Nascem de uma mistura, o que os fazem únicos. Alguns são pequenos, outros grandes, pretos, brancos, pretos com brancos, pelo liso, enrolado, sem pelo. Andam em grupo também, mas nenhum é igual ao outro. Ás vezes comem algo com pedigree, outras se viram catando algo delicioso na esquina. As esquinas, aliás, são sempre uma aventura: estão em todo canto da cidade, alguns não tem casa, outros moram numa caixinha de papelão, muito pequena para o tamanho das suas ideias. Boêmios, são da rua, dos bares, dos botecos sem raça. Quase nunca ficam doentes, não tem medo da chuva, do sol forte,  são filhos do gueto. São malandros, tem samba no pé, gingado no corpo, mandriões. Ás vezes olham a trupe dos cães de raça passando por ali, e tiram sarro através de um uivado esganiçado.

Tem os que nascem cheio de raça e caem na graça dos vira-latas. Existem os que nascem sem eira nem beira e fazem tudo para caber dentro da caixinha seleta. Uns são adestrados por natureza, outros fazem questão de se adestrar e repetir tudo que mandam: faça assim, vista isso, seja aquilo, ouça essa, não saia com aquela, prefira as poodles, aquela é só uma cadela. A cidade é uma matilha, sábados a noite são uivantes, terminam com latidos estridentes, alguns choram quietinhos no canto com o rabinho enfiado entre as pernas, outros ladram, mas não mordem. Na segunda, alguns vão para seu canil, passam oito horas por dia imaginando como é ser livre e correr na estrada quando bem entender. Outros, tem a oportunidade de não precisar se desgastar num canil, mas passam o dia presos em seus apartamentos se sentindo felizes porque são “livres”.


Os de raça, são sem graça. Sabemos sempre o que vem por aí. Os sem raça definida se definem na sua variedade: a gente nunca espera o que acontece depois. Não gostam de coleiras, mas podem andar sempre ao seu lado, sem a necessidade de serem mandados. Uns, exibem orgulhosos seu pedigree, enquanto outros, como eu, só querem seguir a minha filosofia vira-lata.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Sem nome.

Ao som de 'Pra você dar o nome ' - 5 a seco.

Queria poder dar um nome pra isso. Uns chamam de amor, eu chamo de loucura, outros dizem que da no mesmo. Os céticos, de ilusão, os românticos, de doçura, e eu ainda não sei não. É pele, me disseram, é dose, respondo eu. Osso duro de roer, essa coisa que não sei dar o nome, mas que ao mesmo tempo sei que é você. Deve ser isso: o que sinto é você, me preencho de você, tem você me perturbando antes de dormir, tem o teu cheiro que só eu sinto nos ambientes que você nem frequenta mais. Não tem nome porque não quero categorizar aquilo que não cabe em rótulos, amor, pele, desejo, paixão, porque não? Porque não. Não quero. Mas ainda assim te quero tanto que não sei do que chamo, mas sei que te chamo, mas sei que tem chama.

Chama acesa que eu tento apagar com tantos outros nomes que cruzam meu caminho. Chama que escondo por trás de uma cara blasé quando alguém fala seu nome e eu finjo que não sei de quem estão falando. Não quero dar nomes. Mas quero o meu nome junto ao teu. Queria ser anônima, queria não saber de quem eu falo, mas por mais que  eu me cale tudo parece gritar. Quero ir aí, te chamar, falar bem alto teu nome  e o nomear que sinto, mas sinto muito, nunca fui boa em colocar título nas coisas.


Nossa história não tem título. Nossa história sequer é uma história, afinal. Sem final, sem roteiro, mas poderia ser chamada de mentira, me disse o pé no chão. E eu, cabeça nas nuvens, respondi que poderia ser verdade, mas que eu prefiro  achar que é nada, embora o nada ainda seja uma palavra que espera tradução (obrigada, Gessinger). Na falta de uma palavra melhor, decidi chamar de amor, uns me dizem que é loucura, mas da tudo no mesmo afinal. 

Tudo é você.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Crônica Placebo

Para vocês dois, que são os melhores placebos que eu poderia ter.


Um estudo feito em não-sei-onde que eu li em algum lugar comprovou que o placebo funciona de forma positiva na vida das pessoas. Lembro-me que foi assim: pegaram um grupo que tinha um determinado sintoma e deram remédio que prometia curá-los daquela doença. Só que o remédio era feito de farinha, sem o conhecimento dessas pessoas – e, adivinha? Elas ficaram curadas. O simples ato de tomarem uma coisa que achavam que as fariam melhorar curaram seus sintomas.   

Isso me fez perceber que na verdade tudo que a gente precisa às vezes é de um placebo. Seja para curar dor de cabeça, dor de barriga, dor de cotovelo, falta de apetite, falta de vontade ou falta de vergonha na cara. E esse placebo não precisa ser de farinha – pode ser um dia placebo, um amigo placebo, um livro placebo, uma crônica placebo, tanto faz. Mas você precisa desse apoio para querer se curar, seja lá qual for o seu sintoma.

E não pense que sua alternativa placebo é falsa, aliás, ela é muito verdadeira. Porque esse comprimido feito de algo aparentemente falso é o que desperta as suas coisas mais verdadeiras. Precisamos da dor, sentimos ela, mas veja só: precisamos que nos ofereçam algo para que possamos atravessá-la. Precisamos de uma muleta para vencer uma barreira, mesmo que seja uma muleta inventada.

Eu tive um domingo placebo dia desses. Domingo, por si só, já é uma depressão em forma de dia. Mas nesse, em especial, resolvi dividir com pessoas que me faziam bem. Rimos sem motivos, dançamos na varanda, comemos gordices e sentimos que a vida era maravilhosa. Uma dose de domingo placebo e de repente o mundo que pesava em minhas costas parecia ter virado asas, e eu sentia uma vontade imensa de voar. E por mais que tivesse sido só um simples domingo, simples igual farinha, casou um efeito tão devastador quanto uma overdose de remédios quimicamente testados em laboratórios que fazem testes não-sei-onde, que li em algum lugar.


Descubra sua dor. Aí, tome seu placebo. Então, curta suas asas, porque a vida é na verdade muito leve. O que pesa é justamente toda essa droga que tentam nos empurrar goela abaixo.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Maya

O nosso amor a gente inventa.


Os escritores, os poetas, as músicas já nos avisam: é tudo ilusão. Bukowski fala que o amor é uma espécie de preconceito, afinal a gente só ama o que precisa, o que faz sentir bem, o que é conveniente. Caio diz que não há nada a ser esperado ou desesperado, que é tudo maya, ilusão ou samsara, círculo vicioso. Cazuza segue cantando que o nosso amor a gente inventa pra se distrair, e que quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu. Poderia citar mais ilustres frases que de uma maneira sincera, suja, bonita ou simples acabam por dizer exatamente a mesma coisa: que tudo termina – e que quando acontece, fica aquele sentimento de ‘será que era mesmo’?

Quantos sentimentos a gente não inventa? Aquele beijo teria sido realmente tão bom ou era só conveniente no momento? O carinho foi mesmo de arrepiar a alma, ou só arrepiou a pele? Pele. Essa coisa que vivemos confundindo com amor – mas que não deixa de ser também, de uma maneira diferente. Afinal tudo mesmo é amor e tudo mesmo é ilusão, cabe a nós pensarmos como o velho Bukowski e ver o que era conveniente na ocasião.


Não, não pense que eu não acredito no amor, nem que nunca fui amada. Já amei por anos e por instantes, tudo com a mesma intensidade – porque amor, paixão, pele, desejo, ilusão vem tudo do mesmo lugar, e não tem que ser taxados com tempo. Parem de categorizar tudo, sintam e só. Por anos ou por minutos. Se não sabe o que fazer, seja Caio: não faça nada, fazendo tudo. E se ainda assim não der, faça como eu – e Cazuza – conte apenas uma história romântica.