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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Uma história (i)real.

Eu ouvindo o Rio.


Antes de começar a contar essa história, preciso avisar que ela é uma história inventada. O que não significa que cada linha que escrevo aqui não seja real. Também preciso avisar que não sei contar histórias, e justamente por isso insisto em contá-las. Escrevo aqui com o coração.

Quem me contou essa história foi o rio. Ele sussurrou em meu ouvido enquanto estive deitada em cima de sua pedra, com as mãos mergulhadas em sua água gelada. 

Ele não soube me precisar há quanto tempo foi, porque o tempo para o rio é diferente do tempo para nós. A história começa com uma menina, chamada Indiferença, que aos dez anos foi abandonada pela mãe no leito do rio. Nessa época, seu nome era Luz, e foi justamente por conta dessa luz que irradiava que acabou na escuridão sem fim da mata vazia. Acontece que a mãe de Luz amava cegamente seu homem, que não aguentava competir com o brilho que vinha da menina, pedindo então para que a mãe escolhesse entre os dois. A mãe, cega de paixão, achou que não poderia viver sem o homem, e cedeu aos seus desejos. Assim, luz tornou-se indiferença, em nome de uma loucura de amor. 

A menina passou então a odiar o amor. Sozinha, sem saber o que fazer, entregou-se à natureza, e foi acolhida pelo rio, que a amou no primeiro instante que suas lágrimas salgadas se misturaram à sua doce água. Com o tempo, desaprendeu a ler e escrever, pois não precisava mais dos ensinamentos dos homens, apenas dos ensinamentos dos Deus da natureza. Conseguia da terra tudo que precisava, conhecia os animais, entregava-se ao rio. Também o amava, pois repudiava o amor dos homens somente. 

Dez anos se passaram e Indiferença cresceu. Tornou-se bela, com a pele morena do sol, longos cabelos encaracolados e um brilho no olhar que carregava de quando ainda era Luz. Passou a atrair homens de diversas idades, solteiros, casados, ricos e pobres, que iam até o rio para tentar encantar a Indiferença. Ela, que continuava odiando o amor, se deliciava em seduzi-los e depois abandoná-los, sumindo por entre o verde do mato e os deixando perdidos ao leito do rio, que quieto agradecia por cada homem que Indiferença acabava por dispensar. 

Até que um dia, aconteceu. Indiferença não conseguiu ficar imune, e ali mesmo no leito do rio se entregou, de corpo, alma, pele, paixão, desejo e amor. Se banhou em águas desconhecidas. Pela primeira vez, quis deixar a mata, o rio, o seu berço. Pela primeira vez na vida, Indiferença entendeu a mãe. 

 Porém, o rio, que sempre amou incondicionalmente a menina, que sempre a acolheu em suas águas calmas, não conseguiu aceitar. Em sua fúria, afogou a menina. Queria transformá-la em pedra, para que ali ficasse para sempre. Acontece, que as forças da natureza são sempre justas. Naquele dia, Indiferença morreu sim, mas não virou pedra, virou flor. A mais perfumada de todas. Um dia foi colhida e por um casal de namorados e teve suas pétalas jogadas na água do rio, que teve que suportar seu perfume enquanto assistia lentamente as pétalas viajarem por sua água até se perder no mar. Desde então, aquele rio nunca mais foi calmo, sua correnteza e forte, avassaladora, nem mesmo suas pedras ficam ali para sempre.

 - Por que? Lhe perguntei.

 - Para aprender, me disse ele. Nada agora fica preso em minhas águas, para que eu entenda que o amor tem que ser solto. Tem que fluir. Nosso maior erro é querer aprisioná-lo, fazer com que ele seja pedra. Por causa dessa nossa obsessão, acabamos por matá-lo. 

- E a mãe da menina?, voltei a questionar.

 - Não foi feliz, me disse o rio num sussurro. Ela também teve sua lição. Ela não queria aprisionar o amor, mas queria abdicar de tudo por causa dele. Abdicou de uma parte sua, de um pedaço seu no mundo, por causa de um amor. E agora vive só uma meia vida, procurando por Luz e achando Indiferença em todos os lugares. 

Fechei os olhos por um momento e pensei nas minhas próprias histórias. Por vezes, fui rio, por vezes, indiferença, por vezes, a mãe da menina. O que esqueci foi, de muitas vezes, ser eu mesma. Agradeci ao rio. Fiz uma concha com as mãos e bebi daquela água: queria que essa correnteza fluísse dentro de mim.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Vão viver.

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E aí tem gente que só fica assistindo a vida passar. Passa a vida toda ali, existindo, como um mero espectador. Vai viver!! Existir só não basta. Milhões, bilhões de pessoas existem, para que ser só mais um número, uma estatística? Eu conheço gente assim. Gente que parece precisar de uma sacudida para acordar e perceber que enquanto está ali, conformada com a vida que tem, com a rotina de sempre, com os mais-ou-menos-mais-para-menos-do-que-para-mais, as coisas estão acontecendo. E ela está perdendo. 

Então a pessoa reclama. Reclama porque trabalha num lugar que não gosta. Reclama porque está na casa dos pais no interior de uma cidade que nada acontece enquanto gostaria de morar sozinha na capital de outro estado. Reclama porque foi abandonada, traída, deixada para trás. Reclama pela falta de dinheiro, pela falta de amor, pela programação ruim da TV e pelas roupas que tem no armário e detesta. 

Mas ela tenta ir trabalhar com algo que gosta? Ou então se arriscar e procurar oportunidades em outro estado? Quem sabe ela procura entender o motivo de ter sido abandonada e procura a companhia de outro alguém? Por que não desliga a TV e vai fazer algo diferente então? Por que não dar uma repaginada na vida, aliás? Porque é mais cômodo ficar sentada reclamando. Por que correr atrás das coisas não é fácil, então elas apenas se conformam com o que tem e passam a vida – que é tão curta – desejando ser outra coisa.

 Não estou dizendo que não reclamo. Aliás, reclamo um bocado. Mas nunca foi conformada, sempre corri atrás do que eu acho certo pra mim. Muito embora tenha tropeços demais pelo caminho – haja curativos para tantos joelhos que já ralei – pelo menos não fiquei só acomodada. E tem muitas outras coisas que quero fazer. Esse ano coloquei na cabeça que vou aprender a tocar violão – começo as aulas semana que vem. Até o fim do ano termino um livro. De escrever o livro, no caso. E tantas outras coisas mais. 

Se vou conseguir? Não sei. Talvez até desista de algumas coisas e surjam outras. Talvez eu me canse e queria passar uma tarde reclamando e assistindo programação ruim, mas então todas as outras tardes eu vou dar um jeito de ficar mais próxima de viver e não só de ficar existindo. Talvez eu rale muito mais joelhos, cotovelos, coração e etc – mas tudo bem, porque cicatrizes também rendem boas histórias. 

 Tomara que eu tenha conseguido dar uma sacudidinha em alguém. Se precisar, tenho band-aid sempre na bolsa. Afinal das contas, nunca se sabe né.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Sobre pássaros e fidelidade.

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Então perguntaram-me se eu era fiel. Poderia ter dito que sim, afinal é a resposta que todos esperam. Mas minha resposta – e não vejo outra melhor para essa pergunta- foi: Depende o que você considera fidelidade. O cara, que diga-se de passagem não era “fiel”, pois com uma aliança gigantesca no dedo estava me chavecando , fez uma cara de espanto. Perguntou como assim e eu respondi a mesma coisa. Ele mudou de assunto para qualquer coisa banal e depois foi embora, com o conceito burguês de fidelidade dele, que ele nem segue, aliás. 

 Por que, afinal, o que é fidelidade? É não se permitir ter atração por outra pessoa, ou sair com outra pessoa? Ser fiel é dizer para o companheiro que ele é o único na sua vida, mas sair por aí beijando outros só para que os amigos não fiquem perturbando você com piadinhas machistas? Desculpe, mas isso me soa como falso moralismo. Gente que critica as pessoas que tem relacionamento aberto geralmente são as que mais são infiéis, já percebeu? 

 Sei que isso é um assunto muito delicado, afinal quando a gente está em um relacionamento a gente quer a pessoa só para si, não quer dividir com mais niguém. Até aí tudo bem, porém, se fosse fácil assim as traições não aconteceriam não é? Pensando nessas coisas cheguei a conclusão de que prefiro saber por mais que doa. Prefiro ouvir um bem sincero ‘gosto de você mas quero ficar com outras pessoas’ do que um ‘eu te amo, só você’ para depois descobrir que não era só eu. E podes crêr que isso dói bastante. Mentiras – nem sinceras Cazuza- não me interessam. 

 E, depois, tenho pensado que o amor tem que ser livre, afinal. Como um pássaro. Ele vai e volta, se ele quer, fica. Se não ficou, adianta aprisioná-lo numa gaiola só pelo prazer de tê-lo? Canto de pássaro preso na gaiola é triste demais. Lindo é ver ele cantar a mais bela canção ao seu lado sem ter medo de ser obrigado a ficar ali para sempre. E se o pássaro quiser ir cantar em outra estação? Deixe-o ir. Temos que saber lidar com as perdas também. Esse tipo de pássaro é efêmero, e pode ter certeza, sempre haverá uma nova canção, sempre. 

 Diga sim à lealdade. Comece a prestar bem atenção nas canções – como está a sua melodia?

'E ainda que meu amor seja raro
Ainda que meu amor seja verdadeiro
Sou como um pássaro, eu apenas voarei por aí.'

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Let it go.

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A pessoa que não sai do pensamento, suspiros, frio na barriga, músicas bregas: esse é o atestado de que se está apaixonado. Mas o que atesta o fim do amor? Assuntinho complicado esse. Ás vezes passamos dias, meses, anos apaixonados, até que o fim acontece. Existem aqueles que perdem o amor no meio do caminho, outros sofrem porque o fim foi decretado mas o amor continua lá. Como saber que o fim é mesmo o fim? 


A minha teoria – que não tem embasamento científico nem nada do tipo, diga-se de passagem – é que o amor acaba quando o sentimento termina. Qualquer sentimento. Quando passamos por um fim difícil, descobrimos mentiras, traições e essas coisas, mas ainda gostamos da pessoa, esse amor se transforma em mágoa. Em raiva. Em sentimentos ruins, mas que ainda são sentimentos. Sinal de que sentimos algo por aquela pessoa ainda, ou seja, não acabou. 


A gente enche a boca para falar que não ama mais, que não suporta tal pessoa, que tem raiva. Opa. Olha o amor aí gente! Disfarçadinho, para doer menos, mas ele está lá. Raiva é uma forma de amor. Muita raiva então, nem se fala, é o amor querendo dizer que não está mais lá, querendo se disfarçar, para doer menos quem sabe. Agora, quando não se sente absolutamente mais nada, e com isso eu quero dizer que não há mais raiva, mágoa, vontade de reviver as coisas boas, então diga Adieu l'amour, pois significa que ele se foi. 


Veja bem, isso não quer dizer que você não pense nas coisas boas, ou até mesmo nas ruins. Mas a diferença está entre relembrar e querer reviver tais coisas. Lembrar com carinho dos bons momentos é bom, muito bom. Mas se você consegue apenas recordar com afeição, guardar as coisas boas, mas não sente saudade ‘daquele tempo’ ou não pensa em reviver tudo de novo, parabéns, você conseguiu. Não ama mais, superou. Coração limpo, coisa boa. 


E não tem mesmo coisa melhor do que não se remoer com as mágoas ou não querer o tempo todo voltar para o passado, para aquele lugar em que as coisas davam certo e ninguém sabia que iria afundar. Deixar de amar não é esquecer, mas sim saber lembrar das coisas sem ter nenhum sentimento preso a tal memória. E como é bom poder olhar para a pessoa e não sentir nada, além de um agradecimento especial: afinal bons ou ruins, cada momento com certeza serviu para algo. E saber levar isso adiante e continuar vivendo é maravilhoso. 


Deixem o amor entrar. Mas saibam deixar ele ir também. Essa renovação revigora e nos amadurece. Pobre daqueles que mantém o ódio, não sabem o que – ou quem – estão deixando de viver e conhecer por conta disso.




Por @criispi, que aprendeu a deixar as coisas ruins irem embora.

terça-feira, 3 de julho de 2012

É passageira.


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Fazia tempo que eu não acordava tão cedo para pegar o ônibus rumo ao trabalho, mas ontem foi uma exceção. Devido ao lugar que eu me encontrava, seis e meia da manhã já estava sentada no baquinho desconfortável pensando que iria dormir até chegar no meu destino. Tive sorte de não ficar em pé, logo pensei que conseguiria mesmo ir cochilando, mas a menina que estava sentada do meu lado não deixou. Não porque ela estava ouvindo funk no celular sem fone-de-ouvido, até porque acho que ninguém em sã consciência se arriscaria a fazer isso numa segunda-feira de manhã com todos mau-humorados ao seu redor, mas porque ela estava chorando. Discretamente, quietinha, olhando para a janela, quase não dava para perceber. Mas eu percebi. 


Fiquei meio assustada no começo. Depois curiosa. Olhei discretamente (dentro do possível) para ela, em busca de vestígios sobre qual motivo ela estaria se debulhando em lágrimas numa segunda-feira, ás seis e meia da manhã. Perdeu o emprego? Perdeu a carteira? Perdeu a bolsa? Não, eu aposta que era outro tipo de perda: perdeu um amor. Ah o jeito que ela olhava para a janela, depois para o celular, depois balançava a cabeça como quem não entendia nada. Os suspiros, a respiração entrecortada, as olheiras, o cabelo preso, a vontade de não querer chorar mas mesmo assim não conseguir, as pernas inquietas. Já vi esse filme. 


Fiquei convalescida com ela. Entendia como era aquilo. Quis dizer para ela que vai passar. Que vai doer ainda inúmeras vezes, que ela vai chorar ainda algum tempo quando lembrar, que ela vai querer esquecer mas vai se trair lembrando das coisas. Mas que passa, com certeza. Quis abraçar ela, porque sabia que ela choraria ainda mais. Quis dizer que já estive desse lado, que sei o quanto é difícil, mas que agora estou do outro e toda essa lágrima retida tentando cair discretamente durante as viagens de ônibus serviram para muita coisa. 


 Mas eu não disse nada, óbvio. Afinal eu nem sabia se essa minha visão hollywoodiana era o principal motivo das lágrimas dela. De repente ela tinha perdido mesmo a bolsa, ou algo assim. De qualquer forma, me lembrei que estive ali, mas agora estava sentada no banco do lado, criando hipóteses sobre a tristeza dos outros. E ali dentro daquele ônibus, lembrei do velho clichê: a dor é mesmo passageira.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Amor não se mede em tempo.

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Tempos modernos e ainda aquele velho papo do amor dura para sempre, paixão não. Se acabou então não era amor. Quem disse? Quem é que pode ter tanta certeza disso? Amor não tem que ser pra sempre não. Paixão não precisa acabar logo. Amor pode ser paixão ardente, fogo e durar muito. Amor pode ser calmo, sereno, lindo e durar pouco, muito pouco. Mas nem por isso ele deixou de ser amor enquanto durou. 


 Me lembro que tive um amor de duas semanas. Sim, eu amei, por duas semanas. Pouco tempo né? Há quem diga que é impossível amar em tão pouco tempo. Digo eu então que não é só muito possível, como talvez tenha sido um amor mais bonito e gostoso do que outros que duraram bem mais tempo. Tanto que lembro dele com muito carinho e um sorriso leve no rosto. Aí me perguntam: se era amor, porque não deu certo? Eu digo que deu certo, muito certo, dentro dessas duas semanas. Era o tempo que aquele amor precisava ficar na minha vida para fazer eu ter uma boa lembrança dele. Então, esse sim deu certo.


 Amor meu filho, não é pra sempre não. Ele acaba, ele surge de novo, ele se transforma, ele é loucura, é amargo, é triste e é sublime. Tem diversos sabores, rótulos, nomes e formas de se manifestar. Se ele fica ali por anos a fio ou apenas meses, não importa, não vai ser mais amor ou menos amor. Não se mede amor pela quantidade de dias, mas sim pelo que ele proporciona no muito ou pouco tempo que se manifestou. Felizes daqueles que conseguem identificar e aproveitar o amor passageiro ou o amor duradouro, tanto faz, mas que vivem cada dia que podem ao invés de ficar esperando que ele acabe. Que parem de ficar rotulando o sentimento, que apenas se sinta. Se o gosto foi bom, guarde na memória, se foi ruim, experimente outro. Deguste por quanto tempo durar o bom sabor.



segunda-feira, 12 de março de 2012

Despedida.

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Enquanto você está lendo isso, tenha certeza que estou longe. Não encare como um ato de covardia ou como uma fuga desesperada, mas sim como um ato de amor- amor que ainda tenho aqui. Preferi partir assim, escondida, porque se fosse te dizer não teria coragem, não conseguiria. Você me pediria um abraço, eu iria chorar no teu ombro, iríamos perguntar por que isso tudo estava acontecendo, trocaríamos palavras de amor e aquele beijo do desespero – quando duas pessoas se amam, mas não conseguem mais. Então, tentaríamos de novo, ficaríamos fingindo a felicidade até que algo explodisse novamente, e deixasse marcas cada vez maiores e o amor cada vez menor. Já foi grande um dia, se lembra? Já fomos tolos, apaixonados, acreditamos no para sempre e nessas outras coisas tolas. Mas, esse tempo não existe mais – embora eu te ame, que isso fique claro – porém só amor não é suficiente. Deixamos o resto no caminho, perdido, não encontramos mais.
Por isso, resolvi ir.
Não tenha raiva de mim, te peço. Ou tenha, se preferir. Mas vamos tentar lembrar do algo que foi belo um dia. Quem sabe a gente consiga apagar tudo de errado, e ficar somente com o que foi bom?
Agora, você entende porque estou indo? Se eu ficasse, chegaríamos a um ponto que não existiria paciência para pensar nas coisas boas. E o amor seria somente apego. Um amor raivoso, uma coisa ruim. Não é isso que penso do amor.
Embora doa, muito, vai ser melhor a longo prazo. Eu acho.
Não me procure, não se desespere, me deixa ir, você dizia que somos livres, lembra? Amor não acorrenta não. Amor liberta, e somos nós que escolhemos se queremos compartilhar essa liberdade. Nós vivíamos na prisão, prisão de nós mesmos.
Quero que saiba que eu te amo, mas eu me amo muito mais. Mas nessa fúria de querer preservar isso que a gente tem, estava deixando de me amar, de ser eu. Não posso perder minha identidade para ser alguém que não existe, para ser alguém que é perfeita só para você. Se você não pode lidar com meu pior, não merece meu melhor. Sim, li isso em algum lugar, não me lembro onde, mas você conseguiu entender?
Ah, me amar é tão fácil, teria sido tão simples...
Desculpa. Não quis escrever com o intuito de reclamar. Nem de culpar ninguém. Foi nossa culpa, embora eu tenha tendências a querer jogar ela toda em ti.
Espero que tenha entendido, que não distorça o que eu quis dizer. E antes que você enlouqueça com pensamentos errados, não, eu não tenho ninguém.
Estou indo para nos libertar.


Deus sabe o que quis foi te proteger
do perigo maior, que é você
E eu sei que parece o que não se diz
o seu caso é o tempo passar....



ps. curte a página do blog?

domingo, 4 de dezembro de 2011

Crying.


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Não vou dizer que não chorei. Você sabe, eu sempre choro. Mas tenho certeza que tu chorou também. Alguma lágrima escorreu nesse rosto impassível. Dói não dói? Quando estamos de bobeira nesse dia frio e de repente elas vem, as lembranças. Então a lágrima escorre quieta, teimosa. Somos teimosos, teimamos até chegar a esse ponto. Como chegamos até aqui? Você me disse que nunca iria doer, eu te disse que nunca iria embora. Você pegava na minha mão, eu te abraçava e em silêncio diziamos tudo. Agora em silêncio, calamos tudo, tudo o que fomos.
Por isso, sim eu chorei. Pelo Adeus. Minha despedida secreta. Mas agora coloco tudo numa caixa – as lágrimas, sorrisos, lembranças, dores, frustrações junto com aquelas fotos, bilhetes, papéis e tudo mais – coloco tudo numa caixa. Jogo a chave em algum lugar, em um lugar qualquer, em lugar nenhum – não quero mais saber.
Eu chorei, mas não vou mais chorar. Seco as lágrimas, dou um suspiro longo: um ciclo que se fecha, uma cicatriz ainda recente, ainda queimando, porém, uma cricatriz.

As nuvens tinham escurecido completamente. Agora, pensou apertando a mão, agora vem uma ventania, um trovão, um raio,depois começa a chover.
(Caio F. Abreu)

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terça-feira, 8 de novembro de 2011

Contramão

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Sempre acreditei, sempre fiquei. Sofri, um tanto. Sofrimento é mais que necessário, quando se deseja forças para seguir em frente. Mas não pede pra voltar, não quando for tarde demais. Não volto. Não para passar por tudo de novo depois. É preferível não ter. Não tenho, nunca tive talvez, melhor apagar, tchau, vou, fui. Não pega na minha mão, não, não agora. Confunde, tortura, dói. Não pega na minha mão, não diz pra eu ficar, não me faz andar na contra-mão, é perigoso demais. É triste demais, eu sei, sabemos, mas foi assim, não deu pra ser, você não sabia, não foi o que disse? Como agora sabe, sabe o que? Sabe nada. Eu tinha ficado, eu agüentaria tudo, eu tinha coragem, eu tinha amor. Ah, você também? Eu tinha mais. Não, você não tinha, eu tinha mais. Eu tive. Não me diz que ainda tem, se tivesse não estaria aqui agora, me falando. Teria mostrado. Eu sei, eu sei que você tinha medo, quem não tem? Ainda tenho, mas não posso fazer mais nada, fiz tudo que estava ao meu alcance, uma hora não consigo alcançar mais. Você não acreditou, poisé.

(mas eu não estou mais aqui, nem aí,embora a vontade seja grande)

Tentou frear
Faltou coragem
Agora é tarde pra voltar
Tentou mentir
É bobagem
É só uma fase vai passar
(moptop - contramão)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Polaroid.

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Lembro-me  de alguns dias acordar com você silenciosamente registrando aquele momento. Achava estranho, no começo, algo como uma invasão, não sei. Mas com os anos passei a perceber que fazia parte de você, da sua arte, de dentro de ti. Eram várias, nossas, minhas, tuas, de lugares, objetos aparentemente sem graça, mas que para nós contavam uma história. Você colocava a maioria delas na parede da sua sala – sua sala decorada de um jeito tão seu, acho que era meu lugar preferido de toda sua casa. E ali tinham algumas de lugares do mundo, de pessoas estranhas, de coisas que nunca vi. Eu passava horas e horas olhando. Você sabia me contar o momento de todas elas, com um brilho nos olhos. Sempre guardarei isso.

Mas você gostava de tirá-las de mim. Enquanto eu despertava. No nosso café da manhã. Durante a praia. Sorrindo, chorando. Momentos que só você sabia captar. Elas pareciam pintura – não sei dizer, mas não pareciam apenas fotos. Era amor, você dizia. Era a forma como você me via. Eu te via de muitas formas também, mas não precisava registrá-las, pois algo que é bom, fica na memória. Mas você rebatia que a memória confunde, apaga, mistura. E as fotos não. Que meu sorriso seria sempre claro e sereno, não importa  quando você olhasse. Que não queria perder a sensação de me ver despertando. Que precisava registrar.

Claro que um dia você foi embora. Me deixou uma foto, com algumas palavras escritas. Sou do mundo baby. Existem coisas que preciso conhecer. Eu te amo, mas não posso ficar. A gente se encontra.
Quase rasguei as fotos, todas elas. Mas depois apenas aceitei o que não poderia ser modificado. Você era um pássaro, precisava voar. Eu, sua gaiola, não poderia te aprisionar por muito tempo. Olhei as fotos, uma por uma. Sei que voltaria, no tempo certo.

“Fiz aquele anúncio e ninguém viu
Pus em quase todo lugar
a foto mais bonita que eu fiz,
você olhando pra mim

Alto aqui do sétimo andar
longe, eu via você
e a luz desperdiçada de manhã
num copo de café”

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Entre tantos, tão poucos.

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Não sei quantos bilhões de pessoas existem no mundo agora – mais que 7 bilhões a essa altura com certeza, mas acho engraçada a idéia de passar por várias todos os dias sem nem prestar atenção, sem nem desconfiar dos problemas, dores-de-cotovelo e angústias que elas carregam por debaixo da cara de pressa. Mais engraçado ainda é que no meio de tantas pessoas estranhas e que cruzam nossa vida, uma hora ou outra alguma nos desperta. Pode ser aquela pessoa que sempre esteve ao seu lado, mas de um dia para o outro, como mágica: Puf! Ela já não é mais uma do mundo. Ela faz parte do seu, agora. Ela divide histórias com você. Ela te conta como gostava de caçar tatu-bola e comer jabuticabas do sítio do avô, no interior. Você sorri por estar sendo espectador de uma coisa íntima, e conta também de como  morria de medo quando chovia com raios e relâmpagos.Entre risadas compartilhadas, confessa que ainda tem medo. Então seguram nas mãos, um dos outros, se olham por instantes, momentos mágicos que ficam na memória anos depois.

Curioso isso, um monte de gente esbarra em você, te conta alguma coisa. Mas nenhuma provoca aquele arrepio como o toque daquela em especial. Nada parece mais interessante que ouvir sobre tatus-bolas em cima da cama desarrumada no domingo. Um monte de pessoas lindas, saradas, diferentes por aí. Mas você prefere aquele, que não é um padrão de beleza, mas que de algum jeito, conseguiu te prender. Logo você amigo, que se dizia livre pelo mundo, misturado as outras tantas pessoas com cara de pressa. Agora, sorri a toa antes de dormir. Tem vontade de ligar na madrugada só pra ouvir a voz de sono do outro lado da linha falando alô. Ou então, só para ouvir o silencio, a respiração. Quanta loucura nessas coisas.

Como é boa a sensação de saber que no meio de bilhões de pessoas no planeta,  há alguém sentado em alguma mesa de escritório que está pensando em você. Não passar despercebido. Contar e ouvir as pequenas coisas. Fazer as coisas clichês, que todo mundo gosta  e ninguém admite. Pensar com carinho no tempo bom, naquela viagem ou na música cantada de maneira tão desafinada. Não sentir vergonha de ser o que é: tentamos ser tantas coisas todos os dias, que esquecemos como é bom ser livre, verdadeiro e amado exatamente por isso. Por todos os defeitos, histerias e medos, não só pelas coisas boas. Bilhões de pessoas no planeta, e é em você que penso com tanto carinho. Que bom que tenho você, perto ou longe, tanto faz, mas que bom que você é aquela pessoa que no meio de tantas, me faz sentir única.




(texto escrito faz um tempinho, não sei se me cabe mais.)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Você foi a melhor coisa que não me aconteceu.

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 Agora estou aqui, conhecendo um novo mundo. No começo, senti por demais a sua falta, e não tinha para onde correr. Mal e mal entendiam o que eu falava, e eu não sabia ainda expressar sentimentos tão fortes em outro idioma. Pensava em você toda hora, via você em todas as pessoas que eu encontrava, algumas nem sequer pareciam contigo fisicamente, mas algo sempre me fazia lembrar – fosse a camisa amassada, o cabelo liso e displicente, a maneira brusca de caminhar, o sorriso torto. Ou era só coisa da minha cabeça, talvez.

Mas as primeiras semanas foram passando, e a cada coisa nova que eu descobria, ia aprendendo mais e mais que fiz a melhor escolha. Escolhi ir embora para ser livre, para te deixar livre também. Você disse que não, que era para eu ficar, que a escolha foi minha, mas agora te digo: ir para longe fisicamente foi escolha minha, mas estávamos longe, muito longe há muito tempo, por escolhas nossas.

Já te culpei muito, por tudo. Hoje não te culpo mais. Aliás, estou te escrevendo, depois de um longo ano, para dizer para você que você foi a melhor coisa que não me aconteceu. É isso mesmo. Não ter tido você, seguido os planos me abriu novos caminhos. Me levou para o mundo, o que me fez encontrar o meu mundo também. Tinha muito de mim que eu não conhecia. Se tivéssemos continuado, só nos machucaríamos mais e mais. Na época, não entendia, não aceitava, mas agora que tudo passou, guardo com carinho o que foi bom. Ter você na minha vida foi essencial, mas foi preciso não ter para poder entender tudo isso, viver tudo isso.

Você foi a melhor coisa que não me aconteceu. Espero ter sido a melhor coisa que não te aconteceu também, e que com isso você igualmente tenha se libertado, descoberto, vivido – esteja vivendo. Penso em ti, com muito carinho.




"E, antes de aprender a ser livre, tudo eu aguentava, só para não ser livre" - C. Lispector




Obs. li uma crônica da linda da Martha Medeiros e esse conto se criou haha



quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Um conto. (II)

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Lembro quando te encontrei pela primeira vez. Você estava lá, sentado do outro lado da mesa do bar. Quase não falava comigo, quanta arrogância, pensei. Mas talvez fosse apenas porque eu estava acompanhada, acompanhada por um amor que já não era mais o mesmo há tempos, só que era difícil de abandonar. Então, como num golpe engraçado do destino, ele me levou no bar, no bar que estava você, você e suas tatuagens, sua cara de desleixado que contrastava com minha aparencia de menininha fágil - ali estava você, o que faltava para me libertar.


Vi que no meio da noite você tinha me notado. Nossos olhares se cruzaram e eu senti um frio na barriga, que só não era maior que meu peso na consciência - Porque, Deus, porque outra pessoa segurava a minha mão em um gesto tão frio, enquanto você me emprestava um olhar tão quente, ainda que não percebesse?


Quis ir embora, mas ao mesmo tempo queria ficar, só pra fingir mais um pouquinho que você era meu. Fingir que a gente tinha uma história, sabe? Coitado de você, tão inocente ali do outro lado da mesa do bar, mal sabia o efeito que surtia em mim. Ou talvez soubesse, quem sabe, e me olhava como provocação. Sorria entre uma cerveja e outra, me espiando entre minhas caipirinhas sem-graça, não, eu não era pra ti. Eu nem se quer tinha coragem de me desfazer de um amor, quem dera me aprofundar em um outro tão, mas tão diferente? Você era aquilo que eu sempre quis, sabia eu, mas com a mesma força que desejavam eu repelia. Não, não era um padrão de beleza aceitável. Mas “amor” o que eu tinha era, eu mesma era desse padrão, mania de ser aceita pela sociedade, ser destacada, passar a imagem de casal feliz - tudo vazio, fingimento, frígido.


Não tirei aquela noite da cabeça, e posso dizer que muita coisa mudou desde então. Me libertei. Pintei os cabelos, sou morena agora. Tomo cerveja, não vivo mais de saltos, muito menos de esteriótipos. Fui naquele bar outras vezes, mas nunca mais te vi. Queria te dar um beijo, um beijo profundo e profano, sei que iria entender. Sei que um dia te encontro por aí nos bares e esquinas da vida. Quem sabe eu não tenha te libertado de algo também?

terça-feira, 25 de outubro de 2011

(des)encontro

500 days of summer




- Nossa, oi.
- (...) O-oi.
(silêncio constrangedor)
- Faz tempo, né?
- Dois anos.
- É... é tempo. Você não mudou quase nada.
- Mudei, mudei muito.
- É, está mais magra, o cabelo um pouco mais curto.
-Não é desse tipo de mudança que eu falo. Você sempre foi ruim nisso.
-(...). Não sabia que estava pela cidade.
- Só de passagem. Não esperava te encontrar tomando café, você nunca gostou de café.
- Foi uma forma de matar a saudades que tinha de você, quando partiu.
- Ainda sente saudades?
- Estou tomando café, não estou? E você, sente minha falta?
- Sinto. Já senti mais. Fico feliz em sentir menos a cada dia.
- Dois anos. Nunca acreditei que você iria embora.
- Você não falou para eu sumir da sua vida, desaparecer, não deixar vestígios? Eu fui.
- Foi da boca pra fora, você sabe. Eu só precisava de um tempo, colocar as coisas no lugar.
- Tempo não existe. E você não me impediu.
- Você sabe que sempre fui orgulhoso. Mas eu te procurei, e como, você nem imagina.
- Me procurar em outros corpos, em outras bocas, em um copo de café, não conta.
- Não seja cruel, amarga.
- Me desculpa. Não tem como não ser, quando a gente tem que ir embora com um amor dentro de si.
- Ainda tem amor?
- Tenho.
- Me ama?
- Não a você, mas alguém que você foi, mas que só existe na lembrança.
- Eu posso voltar a ser.
- Não pode. Não voltou, deixou eu ir. Melhor não se iludir.
(Levantou para sair)
- Espera! Se eu te der um beijo, algo muda?
- Eu estava aí do seu lado, até agora. Beijo não se pede não, acontece. Não aconteceu, você sempre fica na espera, vejo que você não mudou nada.
(Saiu, sem olhar para trás. Ele ficou paralisado. De novo, deixou-a ir.)




“Se ao menos - você me amasse um pouco, não estaria aqui e agora, neste bar, sozinho, longe de você e de mim” Caio Fernando Abreu.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Caixa.

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Mania de guardar coisas numa caixa. Se é que pode chamar de ‘coisas’ as mais profundas lembranças que ficam ali. Aquela caixa de papelão, já meio desbotada e amassada – também faz tanto tempo não é mesmo? É como se pelas paredes de papelão não pudessem vazar nenhuma das lembranças aprisionadas.. Como se elas não existissem, enquanto adormeciam ali dentro. Aqui dentro também.


Volta e meia abria a caixa. Certa vez foi no meio da noite, quando um sonho terrível veio e fez pensar: esqueceu, esqueceu de tudo, tem outra vida já. Então a caixa teve que ser aberta, para ver você ali parado, com seu sorriso congelado, olhando para a câmera. Por que será que você sorria? Talvez fosse o momento. Mas já estava desbotado.


Outra vez a vontade de abrir a caixa veio junto com uma vontade imensa de chorar. Dessa vez não foi a foto que teve que ser livre, mas as palavras que você colocou no papel. Não foram lidas, e sim devoradas de uma vez. Acalmou, acalmou. Novamente foram para o fundo da caixa, guardada no fundo do armário.


Ali dentro também tinha bilhetes de cinema, uma folha seca, um guardanapo de um bar, sabonete de um hotel nos Alpes (mentira, um hotel de logo ali, mas a imaginação que você tinha ia longe). Coisas e mais coisas, simples, feias, bonitas, mas todas com algum significado, uma história.


Todas na caixa. Tinha mania de guardar essas coisas. Se é que se pode chamar de coisas. Foi um tempo bom, nada precisava ficar guardado por paredes de papelão barato. Suspirou, tapou a caixa. Guardou você.


(até que a caixa necessitasse ser aberta de novo. Cada vez com menos freqüência, observava).

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Secou.

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Então um dia ela acordou, olhou na janela e pensou: eu não te amo mais. Não pode ser amor. Eu não sei o que é amor, ninguém sabe ao certo - pensou - mas não há de ser uma coisa boa? Pensava assim: amor, amor, deve ter acabado. Mas tu não me deixas ir assim como eu te prendo a mim, ao desejo, ao ciúme, não é amor. Deve ser apego. Somos apegados um ao outro pelo sentimento que cultivamos um dia, mas que secou. Só que a gente insiste em molhar, pena que ele não brota mais. Nem ao menos sequer sobrou uma semente, a terra não está mais fértil, mas não queremos arrancar a coisa seca que ainda tem alguma raíz ali. Arrancar as raízes dói. Estremeceu quando pensou em arrancar as raízes. Em deixar a terra se recuperar, sozinha, sem nada. Porque algo dentro dela que a gente geralmente chama de esperança, mas cabe também chamar de desespero, algo dentro dela simplesmente queria continuar, queria pensar nas épocas de primavera florida, colorida, bonita. Como doía ver tudo tão cinza. Então essa (des)esperança gritava dentro dela quando pensava em matar as raízes.
Por que né? Por que apego, por que amor? Podia ser tudo tão simples e tão bonito. Não te amava mais. Você de certo também não, embora dizia o quanto e quanto amava. Mas onde está esse amor, que não via? Onde você colocou que eu não está aqui? Não sentia, não via, não cabia mais, pensava ela. Respirou fundo: era hora de mexer na terra.




"Amor não resiste a tudo, não. Amor é jardim. Amor enche de erva daninha."
Caio F. Abreu

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Velha Infância

Batutinhas, rs



As tardes eram longas, e nelas cabiam sonecas, esconde-esconde, histórias intermináveis da Barbie, jogos de super-nintendo, Nescau e bolo da vó enquanto passava Querida Encolhi As Crianças na sessão da tarde. Duas cadeiras e um lençol viravam uma cabana no meio da selva, com perigos que só eu e meus primos conseguíamos superar. O beliche velho do quarto de visitas era o mais aterrorizante trem fantasma, mas éramos todos corajosos e valentes. A horta da vó? Uma floresta gigante, por vezes também virava um restaurante cheio de ingredientes especiais. Nem os pobres cachorros escapavam, coitados, e viravam alunos da escolinha feita lá no meio do quintal.

Joelhos eram ralados, e como ardia passar Methiolate, viu? A vó tão querida e cheia de abraços gostosos também colocava de castigo e sabia ser muito brava. Nada de brigas na casa dela, senão eram umas palmadas certas. Um real era motivo de alegria e muitos doces na bomboniere da esquina, dava até pra comprar um cascão com duas bolas de sorvete e cobertura!  Os meninos e meninas da rua eram inimigos mortais, embora passassem a tarde toda brincando juntos. Como era legal provocá-los e entrar correndo na casa da vó, e quando estivesse protegida mostrar a língua e fazer careta!

Ah, doce infância. Bom relembrar os dias amenos e longos, onde a imaginação e diversão reinavam. Agora, parece que essa coisa de infância anda meio perdida por aí, com essa coisa toda de internet, vídeo-game e brinquedos de última geração – que brincam sozinhos. Eu não tinha celular. Minha internet era discada, e podia usar meia hora por dia. Aliás, me divertia mais criando quadros no paint e vendendo para o Japão do que entrando em sites, ah não ser é claro, que fosse o da turma da Monica, afinal meu splash precisava de todo o cuidado.

Mas eu sei, sei mesmo que no meio de tantas crianças Hi-tech que tem por aí, ainda existem aquelas que são essencialmente crianças. Que se divertem com pouco, mesmo tendo muito. Que deixam a imaginação fluir, que não tem maldade precoce, que correm e ralam os joelhos (mas que não sentem arder o methiolate, santa tecnologia). É bom não deixar as coisas boas se perderem. Viver cada fase ao seu tempo, porque ter pressa de ser adulto? A infância é a melhor época da vida, e eu relembro com carinho.

Feliz dia das crianças para todos nós, afinal quem viveu uma bela infância sempre guarda um pouquinho de criança dentro de si, tem coisa melhor?

terça-feira, 27 de setembro de 2011

sun, sun, sun

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Abre a janela, deixa o sol entrar. Abre, abre tudo, janela, porta, tudo. Deixa o calor invadir todos os cômodos, deixa ele secar tudo que a chuva molhou, tudo que está encharcado aí dentro. O inverno acabou, sabia não? Deixa as mágoas lá na outra estação. Primavera vem florindo tudo, dando um novo tom para as cores já desbotadas. Um novo amor, porque não? Logo estamos no verão, onde as coisas se intensificam. Ah, o verão, praia, sol, mar, sonhos ao som de Norah Jones cantando sunrise, sunrise, Looks like morning in your eyes...
Seus olhos, seus olhos iluminados pelo sol, sol morno da manhã. Desta manhã, abri tudo, janelas, portas, olhos, coração, deixei o sol invadir, deixei ir embora, vai, nunca mais! Pois agora é primavera, depois é verão. E o sol deixa as cores bem mais bonitas, ilumina fora-e-dentro-de-mim.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Um conto.

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Como de custume, entrei no café. Pediria o de sempre - capuccino - e quem sabe algum daquele brownie que por vezes tinha ali. Como de costume, ele estava ali. Um jornal aberto, uma cara séria, um café expresso. Mas eu sabia, ah  e como sabia, que por trás daquela expressão séria e do amargo do café havia uma história a ser contada. Uma história doce, talvez amarga, talvez intensa. Ele folheava o jornal, tomava o café, e iria embora. Subia na moto, expressão dura no rosto, e sumia por entre as ruas da cidade grande. Todo dia era assim.
Mas havia uma história, uma história a ser ouvida.


Lembro das vezes que eu acordava com o cheiro do café, café forte que você fazia, vestida com minha blusa, nas manhãs de domingo. Trazia até a cama, e deitava, pedia para eu cantar. Eu costumava cantar, é verdade. Você deitava sua cabeça no meu colo, enquanto eu cantava. Depois levantava, pegava algum cigarro e escrevia, escrevia sem parar, porque se parasse  - você dizia - se parasse o momento não seria mais o mesmo, as palavras seriam outras. Depois você lia pra mim, me olhava esperando minha reação. Eu sempre adorava, sempre amava seu jeito de escrever, tão intenso, as vezes impróprio, porém sempre verdadeiro. Assim era você. Eu te amava mais do que cabia a mim.


Hoje ele estava mais nervoso, não nervoso não é palavra certa. Absorto, talvez. Os olhos estavam vagos. Pedi um brownie hoje, queria demorar mais. Queria decifrá-lo. Era seu segundo café, uau, nunca eu vi ele pedir dois. Hoje alguma coisa acontecia.


Não sei ao certo quando começou a acontecer, mas acontecia - ou melhor, nada acontecia. Estávamos caminhando para aquele caminho, aquela estrada, onde você seguiria por um lado e eu talvez ficasse parado, esperando que você voltasse. Você já não escrevia mais, se escrevia não lia mais pra mim. Nossos passeios de moto pelos cantos da cidade tão nossos já não existiam. Eu queria conversar, queria me entender mas cada tentativa resultava em brigas que duravam horas para reconcilizações que não passavam de minutos, tão vagas. Você estava indo, e eu não ia com você. Isso doia em mim.


Como ele era lindo, mas de uma beleza triste. De alguém que não dava uma risada já tinha algum tempo. Ele queria parecer sério, mas eu sei que era triste. Eu iria sentar do lado dele, iria dizer pra ele não se preocupar, que vai passar. Que ele devia abrir a porta, seguir em frente, lá fora tinha uma vida linda para viver. Eu diria tudo isso e iria embora, teria alguma vergonha, mas sabia que tinha que ser dito.


Um dia ela foi, faz um certo tempo até. Levou com ela um pouco de mim, mas não deixou nenhuma parte dela comigo. Ela não queria mais, isso doia muito. Mas a gente tem que sempre que continuar, o mundo não para assistir aos nossos dramas, então assim eu continuava, mas não era mais o mesmo. Sentia saudades de sentir aquela coisa quente e misteriosa que dão nome de amor, mas também sabia que o que vinha depois dele era frio e terrível. Virei mais uma página de jornal, senti um cheiro agradável, de repente. Algo acontecia.




- Só o que eu fazia era servir cafés, bolos, tortas e salgados, todos os dias. Mas, há muito além de bolos e cafés aqui dentro. Todo dia entravam pessoas, e junto com elas suas histórias, que nem sempre são contadas. Algumas, meus senhores, dariam ótimos livros, outras, um bom enredo para a novela das nove. Essa é a novela da vida, que acontece todo dia sem nos darmos conta. Nesse dia, aquela menina espevitada novamente pediu um capuccino, e novamente ficou olhando o homem alto de olhos tristes. Mas algo aconteceu. Talvez fosse o sol que fazia lá fora, ou quem sabe a posição mística da lua na noite anterior, mas foi algo que modificou o roteiro de duas vidas. Vi os dois conversando, vi ele rindo- acho que foi a primeira vez-, vi ela saindo e ele indo atrás. Vi os dois sumindo de moto pelas ruas da cidade. Talvez eu não os veja mais, começou um novo capítulo ali. Mas deixa eu ir, existem mais cafés para serem servidos (e outras vidas acontecendo).

domingo, 28 de agosto de 2011

Historinha.

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Essa historinha  não começa com era uma vez e nem termina com felizes para sempre.  Na verdade talvez ela tenha começado com felizes para sempre, pois os começos na maioria são felizes e achamos que duram pra sempre. Enquanto nada  acontecia, tudo seguia aquele velho script: risos a toa, saudades imensas ainda que a ausência durasse pouquíssimo tempo, mãos entrelaçadas no cinema,  domingos inteiros sem sair da cama, aquela sensação de eu-te-amo-nunca-vai-acabar-não-sei-viver-sem-você.  Esse começo de historinhas como essa costumam ser sempre cor-de-rosa e cheia de floreios.

Mas no meio da historinha algo vai se modificando, algo começa a acontecer – algo que tem vários nomes, mas que eu prefiro chamar de vida, pois o que acontece é sempre o mesmo, a vida.  Mas, enfim, algo começa a acontecer – já não são mais tantos risos e sim algumas lágrimas, o pra sempre começa a ser questionado, finais são ensaiados mas falta alguma coisa – coragem talvez?  Medo de ficar sozinha? Restinho de amor que faz acreditar que vale a pena? . Nesse momento da historinha  é quando se sente aquela sensação de fracasso, de que como fomos chegar nesse ponto? Nos amávamos tanto, sei que podemos conseguir, porém não conseguimos, sofro tanto mas quero ser feliz. Essa parte da historinha costuma ser cinza e conturbada.

Então chega a ultima parte desta historinha – tenho que frisar que é desta historinha, pois as historinhas são um ciclo, algumas se repetem, outras surpreendem. Mas a ultima parte dessa historinha é aquela em que acabou de verdade o conto de fadas, aquela em que se costuma tomar muito café ou muita vodka ou os dois, fumar algum cigarro e ter olheiras. Nessa fase a saudade aperta forte, a vontade de ligar é grande, mas não maior que a vontade de voltar ao começo da historinha ou ao momento em que nada acontecia. É sempre difícil, impossível. Essa parte da historinha não tem cor, é a ausência de tudo. Mas como não existem felizes para sempre – até que me provem ao contrário- também não existe triste para sempre, que fique claro.

E mesmo quando a historinha chega na parte negra, preto  e branca, meio dramática, um dia ela volta a ter cor. Ela pode ter uma cor amena, pode ser um monólogo. Ela pode ter novos personagens ou até mesmo os antigos.  Ela nunca começa com era uma vez ou termina com felizes para sempre, o que não quer dizer que possamos ser felizes enquanto ela durar, e a cada dia colorir ela de uma maneira diferente. Quantas historinhas temos escondidas que merecem ser contadas?