quarta-feira, 31 de agosto de 2016
Palavras soltas que me libertam numa tarde qualquer
"Há um descompasso no tempo". Luzes e sombras dançam no papel ainda em branco - Logo, não será mais. Estará preenchido pelas minhas próprias luzes e sombras representadas por palavras. Palavras: Como são poderosas. Preenchem vazios de folhas de papel e de coração de carne, escondem significados por trás da caligrafia torta, podem ser diretas como flecha certeira ou quente como brasa do fogo. Servem para uma coisa ou para outra, mesmo que sejam iguais. Mal ditas, palavras soam malditas para quem não tem ouvidos atentos. Atentam, enfeitiçam como magia de bruxa apaixonada, prendem mais que nó de marinheiro, transformam a solidão e o nó da garganta no acalento do 'nós', apenas por um detalhe.
Luzes e sombras continuam a dançar sobre a folha de papel já não tão em branco, mas o que dizem essas letras que preenchem? Indagações, devaneio, entenda como quiser. Ou então, faça-me um favor: não compreenda. Não entenda. Jamais saberás o real significado. Jamais saberás por que sentei-me aqui, embaixo dessa árvore, para escrever coisas que não são para serem compreendidas. Nunca saberás por que fumo ou que minha pele se arrepia - de frio ou por outra coisa, como há de saber? - enquanto digo um monte de nada que me diz tanta coisa e eu mesma nado nesse mar confuso de palavras luzes e sombras, folhas já não mais em branco e tempo que passou. Continua passando, ao passo que eu continuo dizendo e não dizendo.
Essas palavras não devem ser lidas.
Devem ser sentidas.
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Deep Blue Sea
Seus olhos de mar me perturbam desde que os vi pela primeira
vez. Eu, que me julgava bom marinheiro, tive medo de navegar – Talvez porque relutava em aceitar
que era hora de tirar o navio do porto, içar velas e me jogar em teus
mistérios. Não, não me julgue – é sempre difícil enveredar em águas que você
não conhece, ainda mais quando se sabe que são profundas e intensas como você.
Alma de mar e pés na terra, assim como eu. Se sou espelho, como me enxergas?
Será que vê além, será que seus olhos profundos conseguem perceber o profundo
que há através dos meus mundos? O que será que será?
Não sei, eis me aqui, navegando. Soprei a vela e na
escuridão pude enxergar com clareza – Na brisa fria da noite, da solidão, na
brisa fria que vem do mar, aceito minha condição. Vou seguindo sua imensidão
sem saber pra onde nem porque, mas vou. E agora que já tirei os pés da terra e
admiti minha condição, me deleito com o não saber o rumo das coisas, não saber
nem se há coisas entre nós. Nós de marinheiro costumam ser fortes. Você abraça
como um nó de marinheiro que não consigo desatar.
Você chega em meu pensamento como ondas em dias de ressaca –
ultrapassa os limites que criei, entrega tesouros escondidos em suas
profundezas e depois volta para sua calmaria. Eu tentava controlar as ondas, mas
como bom marinheiro deveria saber que não se controle o mar, aprende-se a
navegar com ele. Ou então, aprecia de longe, sem saber onde ele poderia levar.
Agora que me joguei, agora que aceitei, continuo não sabendo. Não sei se há
coisas entre nós, laços e abraços, sei que há mar entre nós e que talvez amar
entre nós seja juntar nossas águas sem forçar, sem falar, sem.
Apenas sentir.
quarta-feira, 20 de abril de 2016
palavras soltas talvez sobre você mas só talvez.
Não me importo com a estética que terão essas palavras. Não
quero que elas pareçam ser algo que não são. Não quero que elas sejam
agradáveis, mas sim sinceras. Não quero
que cada letra seja meticulosamente pensada, quero apenas que elas sejam. Não
quero obedecer regras de português quero falar sem vírgula sem aspas sem pausa
porque não tenho vírgulas nem aspas nem pausas quando quero falar sobre você.
Eu nem quero falar sobre você quero mais é que você se foda – não, minto. Quero
mais é que você me foda, assim sem pudor mesmo porque cansei de ter pudor para
falar coisas de carne e alma, cansei de ter pudor para sair na rua ou cobrir o
corpo ou me preocupar e se, e os outros, e por que e e e e e. Cansei dessa letra E que se intromete em cada
pensamento meu quando penso que estou cansada de pensar em você. Cansei de você e estou tão cansada que
deitaria em seus braços macios e assim em silêncio encostaria meu nariz no seu
braço e respiraria bem fundo para sentir o cheiro seu e lembrar do cheiro seu
quando eu estiver cansada de estar cansada de você e quiser deitar no seu braço
mas acabar por falar palavras sem sentido nem estética nem padrão sobre coisas
que eu não entendo. Eu não te entendo. Talvez a questão nem seja te entender –
eu não entendo esse efeito rápido, intenso, fugaz e visceral que tens sobre
mim, não entendo teu beijo voltar na minha cabeça em momentos banais do dia
como na fila do mercado ou enquanto coloco ração para meus gatos que parecem
entender muito mais do que eu entendo sobre tudo isso.
A agonia de sentir agonia. Sentir. Viver é permitido mas
sentir é perigoso me disse uma vez certo poeta, mas qual seria o sentido de
viver sem sentir? Por isso mesmo é perigoso, sentir te faz chorar ao ver algo
bonito bem no meio da rua ou escrever palavras soltas e sem sentido mas com
muitos sentimentos sobre querer te ver na rua e chorar porque era só algo
bonito que lembrava você.
quinta-feira, 31 de março de 2016
uma história que nunca aconteceu ou talvez tenha acontecido
Sol em escorpião, lua em câncer e um coração tão intenso,
profundo e misterioso quanto os mares que deixa espalhados em muros pela
cidade. Desenha olhares indagadores que nada mais são do que suas próprias
dúvidas retratadas nos seres que mais ama, admira e justamente por isso te confundem
tanto – as mulheres. Coração vagabundo que quer guardar o mundo dentro de si,
Caetano cantou uma vez e talvez ele falasse sobre você. Coração que ama, ama,
ama e justamente por isso se confunde tanto, perdido entre a vontade de ser
livre e o medo de se perder justamente nesta imensidão chamada liberdade; a
vontade de deixar ir misturada com o inferno da posse; a vontade de sentir
todos esses sentires latentes que pulsam em suas vísceras com o medo de ser
julgado por, veja só, ser exatamente quem és. Por trás dessa armadura que veste
todas as manhãs antes de sair para fazer coisas de adulto forte e bem
resolvido, por trás de cada fio de cabelo meticulosamente arrumado para que
você pareça quem no fundo detesta, há aquele que quer ser descabelado em cantos
escuros e esfumaçados de festas com gente estranha, aquele que quer arrancar as
roupas de adulto certinho e perder as horas em uma cama qualquer de um quarto
que tenha frases na parede e um violão sem corda. Não tente disfarçar, eu sei. Vi tudo isso desde a primeira vez em que vi
você, quando ainda falávamos cordialmente sobre alguma banalidade qualquer. Eu
acendi um cigarro e li alguma poesia besta sobre amor – amor é mesmo sempre
meio besta – chovia fino e eu podia sentir seus olhos castanhos e profundos
analisando cada poro do meu corpo, me desejando justamente por eu ser o
contrário daquilo que você tinha todos os dias na sua cama limpa e arrumada.
Você sabe disso. Você sabe que eu sei disso. Justamente por isso entramos nesse
jogo sujo de desejo e amor, onde eu fingia que nada sabia e você fingia que era
esse rapaz sério de todo santo dia.
Sol em escorpião, lua em câncer e um sábado qualquer. Seus
olhos intensos e castanhos e profundos mirando cada poro do meu ser e me
desejando mais intensamente do que nunca, porque agora você sabia que eu sabia
que você sabia que. Peguei o chapéu da sua cabeça e coloquei na minha, sussurrei
algo sobre escorpião em seu ouvido e fui dançar no meio daquela gente toda –
aquela gente toda que você finge que detesta, mas que no fundo almeja. Aquela
gente toda como eu, que você finge que desta, mas que no fundo almeja. Luzes
azuis- sempre a cor mais quente - iluminavam
partes do meu corpo, que seguiam o ritmo livre da música tocava. Entre outros corpos frenéticos eu te
via parado, com a cerveja na mão, olhos fixos em mim. Eu sorria e logo me virava, te provocando
porque sabia que era proibido e porque sabia que iríamos ser rebeldes só desta
vez – amanhã, lençóis limpos, moça loira e cabelos alinhados outra vez. Mas
hoje, ah, hoje não.
Caminhei para o canto escuro onde amores proibidos acontecem.
Sem demora, você chegou, no momento exato em que dei a última tragada em meu
cigarro e deixei a fumaça cinza se esvair na escuridão. Nos olhamos – seus olhos
escuros intensos e misteriosos sempre me falaram tudo sobre você, e naquele
momento deixavam muito claro que você me queria. Me queria muito. Queria sentir
meu gosto, o gosto do oposto do que você gosta.
Sua boca na minha, primeiro tenra e macia, para logo depois explodir
nessa intensidade escorpiana de lua em câncer. Não precisamos falar nada – eu sabia
e você sabia. Não existia certo ou errado, nem antes ou depois, somente o
agora. E o agora passava rápido. Sua mão na minha coxa, sua mão quente e
profana na minha coxa, e querendo mais. Querendo que eu e você deixássemos
fluir livremente essa coisa intensa que sentimentos desde aquela primeira vez
entre banalidades e poesias bestas sobre amor, querendo que eu e você
confundíssemos nossas pernas, pelos e apelos até o último suspiro ecoar entre o
canto escuro onde amores proibidos acontecem.
Mas era o momento do agora e esse momento passa rápido. Não
houve nada mais do que poucos beijos, mãos e muito desejo – desejo que vez em
quando te atormenta entre os lençóis limpos de todo dia, entre os mares que
espalha pelos muros da cidade, entre os olhares indagadores que são o reflexo
da sua própria dúvida. E eu, ah, eu sou apenas a antítese disso tudo, uma entre
tantas que ainda irão te atormentar em algum sábado qualquer. Eu, ah, eu não
posso te dar essas respostas que você tanto almeja. Sou eu uma própria
pergunta.
quarta-feira, 23 de março de 2016
Desatinos que surgem durante a madrugada de domingo
Ainda é difícil falar sobre você. Pensar em você. Existe um
você preso na minha garganta de uma maneira que não consigo nem engolir, nem
colocar pra fora. É difícil, veja só, escrever para você. Logo eu, logo eu, tão
tagarela sobre tudo, sempre achando que a vida é um papel em branco sempre disponível
para contar uma história. Mas não sobre você.
É como se tua voz rouca rompesse o silêncio comum nas madrugadas do meu
bairro calmo. É como se você fosse chegar num rompante, com o mesmo sorriso
largo que num sábado qualquer atravessou a minha sala. A sala já não é mais a
mesma, nem o bairro, nem você. Eu nem sei mais quem você é, ou o que você é –
não sei o que faz nessas tardes abafadas de início de outono, se ainda toma o
mesmo café preto com uma colher bem rasa de açúcar enquanto fala de coisas profundas
e misteriosas do mundo. Não sei se agora
despejas seu hálito quente no pescoço de alguém, abafando suspiros com mordidas
no travesseiro – e nem quero saber. Não quero saber de nada disso. Não quero
saber que aquela sala agora é habitada por qualquer pessoa que não nós, talvez
por um casal sem graça ou duas senhorinhas que fazem tricô religiosamente às
três da tarde, não quero saber que em algum lugar daquele estado frio e sem
alma a sua alma quente habita seu corpo também quente, ao passo que o meu está
aqui, também com uma alma quente, em outra sala, em outro canto, despejando
frases sem sentido, mas que me fazem sentir que eu não quero saber mais nada de
você, mas ao mesmo tempo ainda está esse você entalado na garganta, nas três
cartas que tentei te escrever e não conclui, na blusa velha que está já
empoeirada no mesmo lugar que você deixou da última vez, porque eu não consigo
tirar – você da garganta, as cartas do caderno, a blusa do canto, os
questionamentos da cabeça, as lembranças do coração. Amor não dói. Amor só é
bom se doer. Dois poetas e duas certezas, enquanto eu só tenho uma: Amor.
Mas a minha incerteza paira sobre as suas coisas que eu não
quero saber.
Ainda é difícil falar sobre você. Pensar em você. Engolir e
digerir você.
Mas, no final das contas – e você riria, porque sabe que eu
não sei fazer contas – eu falei sobre você. Escrevi sobre você. E, quem sabe,
irei soltar esse você preso na minha garganta, nova sala, blusa no canto
empoeirada e
E.
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Devaneios de uma saudade de domingo.
![]() |
| Para ler ao som de: Tú me acostumbraste - Caetano Veloso |
Chuva caia lá fora, música tocava em espanhol. Chuva caia em
espanhol, música tocava molhada aqui dentro.
Pingo da chuva, Tú me acostumbraste a todas esas cosas e agora não
estava mais aqui. Café aquecia meu coração e me fazia esquecer por alguns
segundos que era você quem preferia Caetano cantando em Espanhol, dias de chuva
no lugar dos dias de sol e que me fazia parar o que fosse para poder contemplar o momento mágico e único
do pó misturando-se com a água transformando o cheiro de nada em fumaça
perfumada. Minha fumaça era agora de cigarro e tinha o pigarro da garganta por
tudo que estava entalado e eu não quis dizer. Não disse porque preferia lembrar
de ti ajeitando a franja que atrapalhava a sua leitura. Não disse porque queria
sua risada tímida por saber que eu só fingia ler para poder te contemplar
secretamente. O que de tão secreto guardava tua mente quando sabia que eu no
fundo mentia sobre todas as coisas cultas que falava só pra te impressionar?
Completamente louca por ser tão contida, como conseguia você ter uma delicadeza
furiosa que transformava pequenos gestos em cenas de cinema que Almodóvar
jamais conseguiria retratar?
E agora só tenho o retrato esquecido na gaveta.
Era domingo. Chuva, voz, café, Almodóvar que eu nem gostava
e você em um lugar qualquer. Nos domingos, você sabe, enquanto eu mínguo, você
fazia alarde porque era seu dia preferido, dia de saudades, dizia você. Enquanto
eu reclamava você amava, amava amava amava até me sufocar entre as paredes da
casa, dizendo que já estava com saudades desses pequenos momentos e eu não
compreendia nada, te amava assustado e depois te deixava num canto sem entender
todo esse encanto que não acontece na segunda nem na terça, só aos domingos. E
veja só. Estou só. E assim eu entendo o
que você quis dizer. Não me lembro
quando você partiu – quando eu te mandei partir porque não entendia nada sobre
partilha – mas me recordo do seu sorriso mudo que me dizia tudo sem falar, e eu
que quis também me calar acabei transformando tudo o que era tão nosso em um
calo doido e doído que me emudece e não me deixa mudar daqui. Fim de domingo –
eu queria ser a saudade de alguém, mas a verdade é que sou eu quem morre de
saudades. De saudades de você.
Segundo post do grupo Escritores na Era do Compartilhamento. Leia também: Tati Argenta; Leca Lichacovski; Sâmela Faria; Jô Lima; Joany Talon; Nathalia Moraes; Ju Rodrigues; Tamyhe; Taciana Gaideski; Fernanda Probst.
domingo, 9 de agosto de 2015
.
Eu não
entendo. Eu não entendo. Eu não entendo.
E isso me
basta.
Se entendesse,
estaria aqui no meio dessa sala colorida (dolorida?) desentendo-me do tudo ou nada ou tudo que é você? Sei como
tu chama mas não sei qual brasa acende a tua chama se ela é breve quente leve
não sei quem tu chama, mas talvez, talvez, queira que tu me leve desse pesado
nada que cisma em chegar num domingo de manhã e não me deixa dormir porque
preciso enxergar, olho nas janelas ainda adormecidas de sonhos que não se pode
dizer, mas vejo você, sem entender, cadê? acendi mais um cigarro – você não
entende o bem que esse mal me faz – mas você não entende e eu não entendo,
traguei e nada trouxe, te fumaria até a chepa mas você não faz bem pro meu
pulmão porque é ventania mas sufoca quero ar quero tudo e quero nada porque há
no nada muita coisa, quero nadar em você e mergulhar em cada poro do seu corpo
e sentir o cheiro do teu cheiro no meu cheiro e não entender nada disso
Não quero que
se conclua. O que concluí então acaba. Não quero um fim do que nem começou por
que eu não entendo,
quero um enfim
dito entre um suspiro manso no meio da
sala dizendo que quer à mim porque também não entende e tudo isso é louco
loucura cura porque chamar só de amor é um fogo raso que se apaga num sopro
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