quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Crônica Placebo

Para vocês dois, que são os melhores placebos que eu poderia ter.


Um estudo feito em não-sei-onde que eu li em algum lugar comprovou que o placebo funciona de forma positiva na vida das pessoas. Lembro-me que foi assim: pegaram um grupo que tinha um determinado sintoma e deram remédio que prometia curá-los daquela doença. Só que o remédio era feito de farinha, sem o conhecimento dessas pessoas – e, adivinha? Elas ficaram curadas. O simples ato de tomarem uma coisa que achavam que as fariam melhorar curaram seus sintomas.   

Isso me fez perceber que na verdade tudo que a gente precisa às vezes é de um placebo. Seja para curar dor de cabeça, dor de barriga, dor de cotovelo, falta de apetite, falta de vontade ou falta de vergonha na cara. E esse placebo não precisa ser de farinha – pode ser um dia placebo, um amigo placebo, um livro placebo, uma crônica placebo, tanto faz. Mas você precisa desse apoio para querer se curar, seja lá qual for o seu sintoma.

E não pense que sua alternativa placebo é falsa, aliás, ela é muito verdadeira. Porque esse comprimido feito de algo aparentemente falso é o que desperta as suas coisas mais verdadeiras. Precisamos da dor, sentimos ela, mas veja só: precisamos que nos ofereçam algo para que possamos atravessá-la. Precisamos de uma muleta para vencer uma barreira, mesmo que seja uma muleta inventada.

Eu tive um domingo placebo dia desses. Domingo, por si só, já é uma depressão em forma de dia. Mas nesse, em especial, resolvi dividir com pessoas que me faziam bem. Rimos sem motivos, dançamos na varanda, comemos gordices e sentimos que a vida era maravilhosa. Uma dose de domingo placebo e de repente o mundo que pesava em minhas costas parecia ter virado asas, e eu sentia uma vontade imensa de voar. E por mais que tivesse sido só um simples domingo, simples igual farinha, casou um efeito tão devastador quanto uma overdose de remédios quimicamente testados em laboratórios que fazem testes não-sei-onde, que li em algum lugar.


Descubra sua dor. Aí, tome seu placebo. Então, curta suas asas, porque a vida é na verdade muito leve. O que pesa é justamente toda essa droga que tentam nos empurrar goela abaixo.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Maya

O nosso amor a gente inventa.


Os escritores, os poetas, as músicas já nos avisam: é tudo ilusão. Bukowski fala que o amor é uma espécie de preconceito, afinal a gente só ama o que precisa, o que faz sentir bem, o que é conveniente. Caio diz que não há nada a ser esperado ou desesperado, que é tudo maya, ilusão ou samsara, círculo vicioso. Cazuza segue cantando que o nosso amor a gente inventa pra se distrair, e que quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu. Poderia citar mais ilustres frases que de uma maneira sincera, suja, bonita ou simples acabam por dizer exatamente a mesma coisa: que tudo termina – e que quando acontece, fica aquele sentimento de ‘será que era mesmo’?

Quantos sentimentos a gente não inventa? Aquele beijo teria sido realmente tão bom ou era só conveniente no momento? O carinho foi mesmo de arrepiar a alma, ou só arrepiou a pele? Pele. Essa coisa que vivemos confundindo com amor – mas que não deixa de ser também, de uma maneira diferente. Afinal tudo mesmo é amor e tudo mesmo é ilusão, cabe a nós pensarmos como o velho Bukowski e ver o que era conveniente na ocasião.


Não, não pense que eu não acredito no amor, nem que nunca fui amada. Já amei por anos e por instantes, tudo com a mesma intensidade – porque amor, paixão, pele, desejo, ilusão vem tudo do mesmo lugar, e não tem que ser taxados com tempo. Parem de categorizar tudo, sintam e só. Por anos ou por minutos. Se não sabe o que fazer, seja Caio: não faça nada, fazendo tudo. E se ainda assim não der, faça como eu – e Cazuza – conte apenas uma história romântica.

domingo, 22 de setembro de 2013

Tic. Tac.

'O tempo não para' - Cazuza


A gente nunca percebe que a vida passa tão depressa. Tudo é tão efêmero, cada dia a mais é um dia a menos meu bem, e nessa de não perceber a vida voando ao nosso redor, ás vezes fazemos tudo errado sem nos dar conta. Esse momento, cada segundo, cada minuto, já passou, já não cabe mais. Presente não existe, porque em um instante ele já é passado, e o que passou não volta. Bem na verdade o passado, presente e futuro não existem – tudo se une numa coisa só. E quanta coisa a gente perde por besteiras, por se apegar ao que não devemos, por medo? Abraça sua loucura antes que seja tarde demais, disse o poeta, e quantas dessas a gente deixa de abraçar por burrices?

É Clarice, tu tens razão:  vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre. Mas a gente não percebe e vai brincando com diversas coisas – levam o sentimento, o amor, a paz, as virtudes, tudo na brincadeira. Vão levando assim, vivendo vagamente, superficialmente, sem perceber que um dia –puf- acabou. Ainda ontem eu comia bolinho de chuvas na casa da minha avó, agora, sou eu quem faço os meus próprios. Ainda ontem eu reclamava da vida dura de estudante do ensino médio, agora sei bem o que é uma vida dura.

Quantas palavras deixamos de dizer, quantas insanidades não cometemos, por medo do amanhã? Mas o amanhã, meus caros, já passou. Passa depressa. É engraçada, aliás, essa teoria do tempo: ele se arrasta tanto quando esperamos por algo – ou alguém – e passa tão depressa quando finalmente estamos realizando aquilo que queremos. Chega a ser uma ironia. Por isso, temos mesmo que viver, intensamente, sem medos, sem mágoas, sem se apegar aos rótulos dos outros. Se tu ama, ame mesmo, ame profundamente, porque logo mais o amor pode acabar, quem garante? Se tu quer, vá atrás. Se não quer, diga, não aprisione, não engane – a vida é muito curta para fazer os outros perderem o tempo precioso que não tem.

 Quero escrever tudo isso sem vírgulas, sem aspas, sem pontos, sem revisão. Queria poder falar tudo que pulsa aqui dentro, queria poder correr e te abraçar e dizer que te quero tanto e tanto. Queria poder conhecer tudo no mundo, ler todos os livros que desejo, ouvir todas as músicas que não conheço, fazer tudo aquilo que não fiz. Mas, veja só, não tenho tempo. E a cada dia tenho menos  ainda. Acho que as pessoas não percebem isso, não conseguem mensurar o quanto passa depressa. Talvez, se realmente prestassem atenção no quanto tudo voa, não ficassem estagnadas. Estamos perdendo tempo, meu bem. A cada minuto.


Tic Tac.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Uma história de borboletar.

'Mas se você brisa... venha me brisar'

Ainda éramos tímidos um com o outro no primeiro dia que você fez uma das coisas que sabe fazer tão bem: me arrumou, deixando-me irreconhecível. Mas aquele dia não foi o milagre que você fez em mim que me deixou deslumbrada, mas a música que você colocou pra tocar e cantarolava baixinho. Primeiro, Tulipa. Depois, Tiê. Sambinha bom entrou em meus ouvidos também, tão bom quanto silenciosamente o prazer de se identificar com alguém, mesmo sabendo tão pouco. Aliás, esse tão pouco é que nos deixou próximos, pouco a pouco, de letra em letra de cantores que quase ninguém conhecia, de risadas sem nexo, de lembranças prolixas e madrugadas de insônia compartilhando meros devaneios tolos a nos torturar – como canta Zé em uma das músicas que temos que ouvir sempre que nos vemos.

Em uma dessas madrugadas, enquanto lamentávamos nossas dores através das canções – que são também poesia – eu te perguntei por que éramos tão sentimentais, afinal. Você me disse que queria ser mais durão e ser igual aquelas pessoas que a gente vê por aí. Bem da verdade, nós somos privilegiados. Tudo bem que sentimos mais, sofremos mais, fazemos tudo muito mais intensamente, e que parece que as pessoas não ligam muito pra isso – e algumas realmente não ligam mesmo – mas, em contrapartida, vemos beleza onde ninguém vê. Sentimos as coisas de um jeito único.

Borboletamos.

Isso foi o que eu mais aprendi contigo. Em tão pouco tempo, fez com que eu borboletasse por aí. Borboletar, sair do casulo, bater asas de um jeito leve e livre. Livre para ser, pensar e sentir exatamente como fazemos, levando a vida sempre como se a cada canto existisse uma poesia escondida. E sabemos que existe. A gente se diverte cantando na cozinha. A gente nunca tem grana – mas somos ricos, muito ricos. Temos sofá velho e música boa. Temos insônia e lembranças que nos afligem, que dói lá no fundo da alma. Temos nosso drama particular, temos a dor da saudade e a incerteza do caminho que seguimos na vida. Mas seguimos, e lutamos  - sempre com a leveza de borboletar. Alguns pensam que não sabemos nada, outros nos olham como se fossemos loucos, porque falamos de misticismo, Deuses, planetas, fumamos cigarros, não queremos fazer parte daquela mesma panela. Eles estão certos, somos mesmo loucos. Porque é preciso ser louco para sair do casulo e ter coragem de ser quem se é. É preciso uma mente insana para sentir. É preciso coragem para amar,qualquer tipo de amor.


Somos vendaval.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Sem adjetivos, nem verbos.

Weheartit.com


Queria escrever sobre você. O cursor pisca insistindo por alguma palavra, mas a página segue em branco. Não que eu não tenha o que dizer – pelo contrário, você é uma fonte inesgotável de inspiração. Poderia dizer mil coisas, usar mil floreios ou palavras difíceis para enfeitar isso tão simples que sinto. Mas não consigo. Não consigo te transformar em ficção, literatura, porque você foi a coisa mais real que me aconteceu. Tão longe, tão aqui. Só sei escrever lindamente sobre mentiras, sobre coisas que observo. Coloco nas palavras sentimentos e anseios que são mentiras sinceras – obrigada Cazuza – ou realidades inventadas, mas se quero dizer exatamente o que pulsa aqui dentro, não consigo.

Você me cala. Você me faz querer justamente as coisas que mais fujo desse mundo. Você faz eu me sentir piegas, brega, me faz  escrever coisas clichês. O amor – posso chamar disso? – é clichê. É o ridículo da vida, diria Cazuza em sua voz rouca novamente. Ninguém quer ser ridículo, tolo que somos. Na tentativa de não ser piegas, disfarçamos das maneiras mais óbvias possíveis aquilo que a gente sabe que sente. Por que sentir, afinal, é tão difícil?


Não sei explicar. Do mesmo jeito que não sei ter coerência quando tento te retratar como minha literatura. Incoerentes, aliás, é tudo que somos, fazendo as coisas sem nexo, sem sentido, tão confusas, difusas, e por serem assim tão tortas, tão reais. Ainda estou na dúvida, aliás,  se queria ter te encontrado ou apenas continuar com a ideia do que teria sido. Não sei mensurar, não sei explicar, não sei escrever: você me bagunça. Bagunça todas as palavras que já deixo organizadas para escrever sobre isso, confunde os adjetivos, advérbios, verbos e tantas outras coisas que serviriam para me nortear. Meu senso de direção não funciona com você, porque não temos direção – apenas seguimos para o agora, e quem sabe, o infinito. É assim mesmo, ao som do Lenine: não me importo com a lógica, quero só o que me interessa.    

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Conto cor de Carmim, ao som de Jobim.

Leo Fressato, veranizar.

Dizem que já superaram um ao outro. Seguem suas vidas, paralelas, sem se encontrar em becos, nem ruelas. Ele, Jobim, ela rock. Ele, carmim, ela rosa-choque. Os dois, paralelos, ela com a luz do abajur acesa fuma sem parar, ele trepa (assim, vulgar) com uma Maria sem nome. Ela, independente, ele, um tanto carente,  seguem suas vidas de um jeito, distante,  ausentes. Dizem que já superaram, mas suspiram e esperam por notícias um do outro, ainda que de um jeito discreto. Secretos, se encontram em pensamentos. Ele sempre atento, ela um tanto distante, ele, um acalento, pra ela, tudo apavorante.

Ele Sampa, ela Rio. Mas ele tem um corpo quente agora, e ela um quarto vazio. Ela pensa, repensa, vira de um lado pro outro. Ele afaga, suspira, esmaga, goza, se cansa e depois se sente um cara morto. É só desejo, ele pensa, passa a mão em seus cabelos morenos.  É só insônia, ela pensa, e fuma mais um cigarro no sereno.  Porque já superaram um ao outro, e eram estranhos agora. Mas lá fora, ainda que tudo seja solidão, ela sente uma presença. Lá dentro, embora tenha companhia, ele sente-se esmagado pela ausência.

No prédio dela, luzes se apagam e se acedem sem parar, e ela pensa no que ele estaria fazendo. Em sua casinha, longe de tudo, ele vai até a janela e se trai pensando nela. Seu suor ainda está escorrendo. Ela gostaria de sair correndo, gritar, arrancar isso pra fora. Ele, lá fora, gostaria de não ter corrido, e sente que precisava dela nesse instante, tipo assim, agora.

Ela chora. Ele da uma risada nervosa. Ela apaga o cigarro,  a luz, e volta para o seu mundo. Ele acende um cigarro,  a luz, e fica mudo. De repente, ela, no Jobim. Ele coloca baixo um rock. Ela passa um pouco de batom carmim, ele observa as calcinhas jogadas em seu chão, veja só! São rosa-choque. Quase pegam o telefone. Quase ligam para não dizer nada um para o outro. Ele Sampa, ela Rio. Ele quente, ela frio. Ele volta, ela dorme. Afinal, já eles já se superaram.


(Mas, pensam os dois sem querer, será mesmo que acabaram? Se esgotaram, por fim. Nem mais rock, nem carmim.)

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Gente que deixa a vida mais leve.

Tem coisa melhor?

Acontece que eu não confio em quem não come carboidratos. Nem em quem nunca passou o domingo todo de pijamas. Pessoas que dirigem sem ouvir música não podem ser confiáveis. O que falar então de quem nunca raspou a panela de brigadeiro? Vixe, complicado. Impossível acreditar em quem nunca deu risada até a barriga doer. Ou, nunca assistiu rei leão. Quem não andou descalço na grama, quem não ficou dias sem arrumar a cama, quem nunca beijou um cara sem saber o nome ou então mentiu o número de telefone. 
Como acreditar, aliás, em quem nunca mentiu? Como posso entregar meu coração pra quem nunca roubou miolo do pão? 

 Ah, confessa vai. Eu sei que tu também já chorou assistindo um filme besta. Nunca ouviu pagode quando estava na fossa? Nunca comprou coisas no impulso – pra se arrepender logo em seguida? Ah, duvido que no seu guarda-roupa não tenha uma peça que tu não joga fora porque vai entrar nela algum dia. Tu nunca começou uma dieta na segunda-feira ou então prometeu que correria 10 km por dia na esteira? Nunca dançou na chuva, ficou sem pentear o cabelo, quis conhecer a Xuxa ou sofreu por dor de cotovelo? 

A  vida é séria demais para a gente ser certinho o tempo todo. Não consigo confiar em gente que não erra, que não leva a vida mais leve. Gente que quer o tempo todo comer 700 calorias e acaba perdendo a alegria de um bom miojo na preguiça de domingo. Gente que vive a procura da felicidade, mas que esquece o quanto é bom dar risada sem motivos. Gente que quer viver rodeada de pessoas bonitas e populares e não da valor aos verdadeiros amigos. Gente que diz eu te amo sem amar, gente que não sente paz ao olhar o mar. 

Acontece que eu não confio nessa gente. Mas elas estão a todo canto por aí, tentando se encontrar e cada vez mais perdidas. Amigo, larga um pouco a academia. Amiga, deixa a maquiagem de lado. Vamos comer muitas calorias e deixar a vida mais colorida com coisas mais leves. Vamos viver com menos status, menos likes, e mais alegrias.