quinta-feira, 14 de outubro de 2010

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Imagem: http://weheartit.com




Ela era dos domingos chuvosos. Tão cinza quanto.
Adorava palavras complicadas. Amava filmes de Almodóvar e Godard, mesmo sem ter visto nenhum.
Fuma um cigarro ás vezes, só pra fazer drama. Vestia seus sapatos vermelhos, ou então aquele preto com o salto fino de prazer, e tão logo se sentia mais sexy do mundo, ainda que de camisola.
Amava, se entregava, chorava, amava de novo para-sempre-por-um-dia.
Ela era dos domingos chuvosos. Batom vermelho. Blues. Abraçados na cama.
Mas logo vinha segunda-feira.
E uniforme. Bom dia senhor, como vai? Sorriso de plástico.
Mas lá escondidinha, tinha um sorriso sexy. Pois domingo nunca tarda.




Escrito em um momento de saudades suas. Ao som de BB King.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Sofá velho.

Foto: Cristina de Souza. http://flickr.com/photos/criispi


E chegou a hora de jogar fora o sofá velho. Ficou sentada nele, durante horas sem saber o que falar – era confortável ainda, pelo menos para ela- mas estava já meio rasgado, meio furado, mas ainda era o sofá dela.
Deixaria abandonado na porta de sua casa, ao relento, para que outro quem sabe soubesse fazer do sofá velho algo novo? Não, sentiu ciúmes. Quem sabe talvez largasse em alguma loja de sofás, alguma loja de bugigangas, até quem sabe restaurasse o tal sofá? Não, não serviria mais. Não se restaura um sofá velho, porque mesmo com aparência de novo todas as histórias velhas, todos as pipocas que acompanhavam os filmes, todas as moedas perdidas, todas as dores-nas-costas ou lágrimas escorridas estariam escondidas dentro do estofamento do sofá velho.
Se ao menos tivesse um porão ou um sótão ou um espaço poderia esconder o sofá velho ali, e quando sentisse saudades do seu cheiro único, das suas estampas desbotadas e das risadas que já tinha deixado por ali, era só matar as saudades. Mas, se assim fosse, temia nunca se acostumar com o sofá novo. Sofá novo. Era tão estranho! Sentiria falta.
Decidiu pedir para alguém pegar seu sofá velho. Alguém por aí, não queria saber o destino, o que iria ser feito, queria apenas que ele não tivesse mais ali no meio de sua sala, mostrando que já fora adequado aquela vida, mas que já estava démodé demais.
Deitou no sofá novo. Este estava meio tímido ainda, colorido demais, certinho demais. Saudades repentina, céus.
O sofá velho. O sofá novo. Era estranho, mas tudo ficaria no lugar, agora.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Até quem sabe.

imagem: http://weheartit.com

“... Até um dia, até talvez, até quem sabe. Até você, sem fantasia, sem mais saudade.”

E agora dizemos adeus. Por Deus, como é difícil, é como uma bossa nova triste.
Nos olhamos, olho pra ti, sempre foi tão profundamente, quem pode entender o que o amor nos faz?

“Agora a gente, tão de repente, nem mais se entende, nem mais pretende”

Quanto tempo faz? Semanas talvez. Quanto tempo fará? É duro viver uma meia vida sem você. Mas tudo que fomos, passou, a gente agora não somos mais. Tomo um café, fico calada. É triste, ouço bossa nova, canto bossa velha.

“Seguir fingindo, seguir seguindo, agora vou pra onde for, sem mais você”

Não que não sinta sua falta. Será que sentes a minha? A pior dor já passou. Coloco um sorriso fingido no rosto quando me falam de você. Ensaio mil maneira de dizer ‘é mesmo? Que bom’ sem parecer que desesperadamente sinto a sua falta. Mas estou bem, estou indo.

“Sem me querer, sem mesmo ser, sem me entender, vou me esquecer”

Pra te esquecer, não posso mais lembrar de mim. Lembranças estão em todos os lugares, mas olho pra elas com um olhar de desprezo, que elas me devolvem. Quase te liguei, mas jurei pra mim que tinha esquecido teu número. Escuto Nara Leão nesse momento.

“Vou me perder pela cidade, até um dia, até talvez,até quem sabe”

Entendo o recado. Até, amor, quem sabe.

Trechos da música Até quem sabe, de Nara Leão.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

I really want u,

imagem: http://weheartit.com

...minha insensatez. Minha falta de razão ou a razão demais me fazem te querer todo dia todo dia o dia todo, com todos os clichês como sussurro ao pé do ouvido, eu te amo no meio da noite, olhares e silêncio. Eu realmente, realmente quero você, com todos os defeitos e chatices e manias, quero todas manhãs, quero em todas as canções.
Quero mãos dadas no escuro do cinema e aquele frio que percorre toda espinha, porque sabemos que somos um do outro ali no escuro do cinema de mãos dadas, porque eu te amo não se diz só com palavras, sabemos que.
De bermudas e sem camisa, fazendo o almoço as três horas da tarde em um domingo, dando qualquer desculpas por ter queimado o arroz colocando a culpa em mim por estar linda e distraí-lo, ainda que eu estivesse descabela e com a roupa mais velha – sua roupa. I really want you.
Por inteiro, sem meios. Te quero imperfeito, com medos, com dúvidas, com a cara de sono e com o arroz queimado. Aos domingos, nas sextas, nas segundas cheias de tédio.
I really want you. 


ao som de James Blunt.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Careta.

Imagem: http://weheartit.com

É que sou careta. Digo que sou moderna, in, faço cara de I don’t care e fumo um cigarro, tomo um café forte.
Mas no fundo sou careta. Digo que quero ter uma carreira de sucesso, morar em um apartamento – ou flat, que soa mais bonito- ter um cachorro e alguns casos por aí.
Mas lá no fundo, no fundinho, sou careta. Acredito no amor, em andar de mãos dadas no shopping, em ter uma casinha com cerca branca, penso nos nomes dos nossos filhos, é filhos – um casal – coloco seu sobrenome ao lado do meu para ver se combina.
Sinto frio na barriga, quero palavras doces sussurradas no pé do ouvido, quero que você me olhe e diga baixinho, quase sem fala, que me ama.
Quem não é careta?
Porque ficar deitado um do lado do outro, somente se olhando, contigo passando a mão no meu cabelo e eu segurando a sua mão como se fosse me perder se soltasse é bom.
Porque ficar horas no telefone e depois não querer desligar – quer coisa mais careta? – e sentir aquela saudades logo depois de te ver é bom.
Já fingi não ser careta. Já ri desdenhosamente quando alguém falava de amor, já espalhei a quatro ventos que paixão não existe.
Mas, como diria Cazuza: ‘ O amor é o ridículo da vida’.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Juventude Transviada

Imagem: Google


Bom seria se estivesse falando de James Dean. James quem?
Pois é. Pergunte a essa juventude transviada de hoje sobre James Dean. Elvis, Cazuza, Elis Regina, até mesmo Chico Buarque ou Los Hermanos. Los Hermanos? Ah, essa é fácil. Aquele do Ana Júlia. NÃÃÃÃO!
Pegue sua calça colorida, coloque um tênis com a maior quantidade de cores que conseguir juntar nele e se junte a família da primeira banda de pessoas bonitinhas que você encontrar. Xingue muito no twitter, ache tudo uma ‘puta falta de sacanagem’.
Ah, que saudades do tempo (do tempo que não vivi) em que as pessoas saiam para tomar um Milk shake, ouvir uma boa música, se divertir com os amigos. Da época que se tirava foto para recordar algo bom, e não para se promover no Orkut, facebook, myspace, [insira a rede social da moda aqui].
Saudades da época que as pessoas gostavam das bandas pelo som que ela produziam, não pelas calças que vestiam.
Tudo bem, já fui adolescente também. Fui fã, muito fã de backstreet boys – é. Mas, em contra-partida ouvia muito Beatles também. Ouvia Bee gees, jovem guarda até. Por culpa do meu pai – agradeço por isso – sempre ouvi músicas antigas, e boas.
Sempre li muito, e quando eu falo ler não me refiro somente a leituras do tipo vampiros que brilham – muito embora tenha lido também. Falo de Clarice, Caio, Drummond, Shakespeare. Também Meg Cabot, JK. Rowlling, por que não?
Como, e como gostaria que os jovens de hoje em dia tivessem mais essência, personalidade. Óbvio, estou generalizando aqui a minha revolta. Sei que muitos se salvam, e fico feliz toda vez que eu visito um blog e leio textos incríveis, fico muito contente quando olho as fotos das pessoas no flickr ou quando vou em uma livraria e vejo lá adolescentes lendo, discutindo, buscando conhecimento.
E também tenho meus momentos de futilidade, gosto de calças coloridas e ouço algumas dessas bandas bonitinhas-desafinadas também. Mas isso, é minha exceção, meu acaso, não minha regra.

Precisava desabafar, após ouvir as futilidades de um grupo de adolescentes hoje. Espero que ninguém se ofenda. Obrigada :)

Obs. Estive sumida por um tempo, estava mergulhada no meu novo vício, o flickr. Adoraria visitas.
Obs 2. Logo respondo os comentários.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Do fim.


 imagem: http://weheartit.com

É que eu não superei tudo ainda. Está na música que ouço, no incenso queimando devagar, no frio que arrepia minha pele – o frio, ao invés de você- está na sua xícara em cima do meu criado mudo, está no cheiro da sua camiseta abandonada, nos cigarros que eu nem fumo, mas que estão guardados em cima da minha estante.
E eu sei, sei que vai passar, alguém vai surgir mais pra frente, nem que esse alguém seja solidão, solidão boa e amiga, porque nem sempre solidão é ruim.
Mas ainda está aqui. Ainda distraidamente procuro a tua mão no banco do carona do carro. Procuro teu corpo quente no meio da noite, espero meu café no meio da manhã.
Não quero voltar – pra que estragar algo que foi tão bonito um dia? Bom seria se pudéssemos rebobinar a fita e quem sabe achar o começo do fim de tudo.
Ou, quem sabe, seja esse fim o começo de tudo. Um novo começo pra mim, um novo começo pra ti, ainda que não haja nós no meio disso tudo.
O que me resta, no entanto é sentir saudades do que fomos.
É que eu não superei tudo ainda. Mas vai passar. E um dia lembrarei de tudo apenas com uma saudades gostosa, não mais com amor.
Mas por enquanto, deixa eu te viver no que restou dentro de mim.