sexta-feira, 2 de julho de 2010

Do fim.


 imagem: http://weheartit.com

É que eu não superei tudo ainda. Está na música que ouço, no incenso queimando devagar, no frio que arrepia minha pele – o frio, ao invés de você- está na sua xícara em cima do meu criado mudo, está no cheiro da sua camiseta abandonada, nos cigarros que eu nem fumo, mas que estão guardados em cima da minha estante.
E eu sei, sei que vai passar, alguém vai surgir mais pra frente, nem que esse alguém seja solidão, solidão boa e amiga, porque nem sempre solidão é ruim.
Mas ainda está aqui. Ainda distraidamente procuro a tua mão no banco do carona do carro. Procuro teu corpo quente no meio da noite, espero meu café no meio da manhã.
Não quero voltar – pra que estragar algo que foi tão bonito um dia? Bom seria se pudéssemos rebobinar a fita e quem sabe achar o começo do fim de tudo.
Ou, quem sabe, seja esse fim o começo de tudo. Um novo começo pra mim, um novo começo pra ti, ainda que não haja nós no meio disso tudo.
O que me resta, no entanto é sentir saudades do que fomos.
É que eu não superei tudo ainda. Mas vai passar. E um dia lembrarei de tudo apenas com uma saudades gostosa, não mais com amor.
Mas por enquanto, deixa eu te viver no que restou dentro de mim.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Aos 32 30.


 imagem:http://gettyimages.com.br

Linda, bem sucedida, um bom carro, sempre na moda. Confiante, falando no celular, palavras difíceis, alguma expressão e, inglês, anyway.
Algum namorado, nada de filhos – por ora. Sapatos e bolsas intermináveis no armário, cremes e mais cremes no banheiro.
Era moderna, sabia. Poderia ilustrar um outdoor com seu sorriso mais brilhante servindo de exemplo de mulher de sucesso.
Tinha 30. Ok, 32. Já tinha que usar ‘renew’, mas quem se importava? Ela passava por 27, fácil fácil com um pouco de pó-blush-base-batom.
Quando passava na rua, arrancava alguns olhares, dos homens de admiração, das mulheres de um pouco de inveja – como ela era magra, e aquele sapato!
Mas chegava em casa e descia do salto.
Ninguém sabia, mas ela tinha um pote de sorvete, e ás vezes - com mais freqüência que gostaria, na verdade- usava ele. Usava também chocolate, via filmes românticos-bregas e chorava, seu pijama preferido não era a camisola sexy que usava em ocasiões especiais, mas sim uma camiseta velha. E uma calcinha grande.
Ela cantava Tetê Espíndola bem alto e desafinado, e depois caia na risada. Abraçava o cachorro – o de quatro patas nessa hora – se imaginava no altar de véu e grinalda, se imaginava menos casual, se imaginava mais de mãos dadas – com suspiros e passeios no shopping – queria dormir de conchinha, tão logo abraçava seu ursinho de pelúcia que ganhara daquele cafejeste que mais amou quando tinha 16 anos. Porque quando temos 16 anos é tudo tão mais intenso e pra sempre e dolorido. Quando foi que deixou de ter 16 anos mesmo?
Ah em casa ela podia ter os cabelos bagunçados, não se preocupar com maquiagem, chorar, rir, chorar de novo, admitir que erra e errar novamente, pois isso nos torna mais humanos. Ah, em casa.
Depois na segunda-feira-de-todo-dia colocava a máscara inteira novamente. Mas ria-se toda por debaixo dela, e iria um dia conseguir alguém para rir-se todo com ela- ela real – também.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

No caminho.

 imagem: http://weheartit.com

Pegou a minha mão e me levou pra onde nunca tinha ido. E eu te disse: ‘por que?’ Você sorriu e me disse ‘por que não?’
E então mergulhei no desconhecido, e o medo – porque eu não deixara ninguém me conduzir pra lugar nenhum – o medo que era tanto no começo foi passando, passando.
E de mãos dadas passamos por caminhos, uns bonitos, uns não tão bonitos assim. Mas mesmo quando eu quis soltar a tua mão sair correndo, você não deixou. Não vá se perder, não vamos perder algo tão bonito, era o que me dizia.
E eu não acreditava poder chegar tão longe. Eu acreditava que chegaríamos a lugar nenhum, e que no final seriamos apenas passos distantes um dos outros, como havia de ser.
Mas estava enganada, até porque desconheço o final ainda.
Por enquanto estamos em passos lentos, pé-ante-pé, escolhendo nosso caminho.
Ainda que de longe – culpa do destino- a sua mão está junto a minha. E como é bom poder acordar e saber que não estou sozinha no caminho, e mesmo que a saudades – e todo o resto, que prefiro chamar de pedras no caminho- queiram ser obstáculos, você me pega no colo, a gente os pulas e caímos na risada.
Porque caminho é amor. E eu quero seguir este caminho, com você.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Sim e não.


 imagem:http://weheartit.com

E se dá um suspiro, um suspiro longo. Era amor, paixão, loucura ou qualquer um desses sinônimos, antônimos ou seja-lá-o-que-for. Mas sabia que era.
E não tinha passarinhos verdes nem sorrisos bobos, as pessoas não passavam sorrindo cantando e dizendo bom-dia-que-lindo-dia-como-voce-está-bonita-hoje, ela mesmo não andava cantando e cheirando flores no caminho – muito embora cantarolasse aquela música que não saia da cabeça – mas ela sabia que era.
Porque a gente sempre sabe que é, embora muitas vezes não queremos admitir, queremos fugir, nos enganar etc etc etc porque amar ás vezes é tão bom que dói. Dói porque a gente pensa: não quero que acabe, porque a gente já amou e acabou ou porque a gente nunca amou e tem medo de não saber amar.
Amor (loucura, paixão, o que mais?) era o que ela tinha naquele momento. Pronto, falei, confessei, não fugirei mais. Ás vezes é tão mais fácil seguir o caminho, não? Sofrer sofreremos hora ou outra, sofreremos por estar sozinha quando todo mundo tem alguém, sofreremos porque não temos mais certo alguém que tínhamos a um minuto atrás.
Se jogou, foi o que disse ela. Mas não tinha ninguém garantir uma queda suave. Mas tinha alguém para se jogar junto, e não é isso que vale?
Pois tudo é sinônimo e antônimo mesmo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Bolinhos de Chuva.

imagem:http://gettyimages.com

É que a gente se pega em um sábado a tarde rindo sozinha quando sente aquele cheiro. E aquele determinado cheiro – bolinhos de banana da vovó, juro!- me transporta para um outro tempo, um filme vai passando pela minha cabeça – em preto e branco, com a voz de Norah Jones cantando Seven Years – e me vejo sentada, minúscula e de pantufas, em uma mesa de mármore grande, balançando os pezinhos enquanto uma avó corpulenta mexe vigorosamente a colher de pau numa panela. Tudo ali – a cozinha, a avó, as pantufas, a mesa – parece tão aconchegante e feliz, e eu continuo me balançando como se a maior preocupação fosse raspar a panela ou esperar os bolinhos esfriarem.
E assim as tardes iam, as tardes jamais vazias, preenchidas com sessão-da-tarde, sonecas, Nescau e brincadeiras, brigas com os irmãos, pés encardidos, joelhos ralados e doces da boboniere.
Os domingos, ah os domingos, pareciam ser todos ensolarados, mesmo os chuvosos. E ia aquele almoço – macarrão, carne de panela, maionese de batatas e alguma sobremesa para o café – sempre cheio de gente, tias tagarelas, primos se acotovelando sobre a mesa, a avó corpulenta e sorridente e o vô meio quieto, cara de bravo, mas que tinha o melhor abraço do mundo.
E agora nos sábados sozinha almoçando qualquer coisa com qualquer pessoa, me pego rindo ao sentir aquele cheiro, aquele cheiro que era bem mais que bolinhos de chuva com banana. Aquele cheiro era algo como família.
E deu vontade louca de chorar e rir ao mesmo tempo, pois amanhã era domingo-pé-de-cachimbo mas a gente é adulto e não pode se balançar na mesa de mármore ou ralar os joelhos e passar mercúrio, porque na minha época methiolate doía. A gente é adulto, não se lembra desde quando, mas é isso agora – sem sonecas e sessão da tarde. Só vez-em-quando, pra não ser injusta.
E tudo é um filme preto-e-branco que passa na cabeça. Ao som de Norah Jones.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Mãe.

 imagem:  Eu e mamis.

E quando segurou a minha mão – uma mão tão pequena e frágil – sentiu o maior amor do mundo. Sabia que não faria de tudo, tudo para me proteger. E eu, ainda que não soubesse de nada do mundo a minha volta, podia sentir todo esse amor. É inexplicável.
E o tempo foi passando, o tempo continua passando. Aprendi a falar, andar, escrever, me vestir, dirigir, saí de casa, e tudo foi passando tão depressa... Mas como precisei segurar na sua mão diversas vezes. Sentir esse amor, sentir-me protegida. Ás vezes achava que era grande o suficiente, que não precisava mais de ti, que não precisava mais ser cuidada, que estava certa – e como estava enganada. Não importa a idade que eu tenha, sempre precisarei de ti, do teu carinho, do teu conhecimento, do teu amor. É tão bom poder deitar no teu colo, tão bom te abraçar depois de uma longa saudades.
Desculpa, se ás vezes te magoei, te fiz sofrer, não foi por mal, entenda. Faz parte do pacote. Do meu crescimento.
Obrigada, por estar comigo, sempre. E não importa se um dia serei mãe, se num futuro eu que vou segurar uma mãozinha minúscula e sentir todo o amor do mundo, porque eu nunca vou deixar de ser filha, de me sentir protegida ao seu lado e de aprender contigo.

Te amo, mãe.



Obs. Desculpe-me a ausência. Tá difícil arranjar tempo, mas prometo que logo, logo eu consigo :)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Cartas.

 imagem:http://weheartit.com

Aqui estou eu, escrevendo de novo pra ti. Não sei se você vai ler – nem sei se ao menos eu vou mandar- mas é que hoje estou pensando em ti. Não, não que eu não tenha pensado mais, mas hoje a tua lembrança veio com uma certa urgência, e eu quase te senti aqui do meu lado. Pode ser porque hoje é domingo e pra piorar faz frio, e eu ouvi aquela música, não sei, mas é como se eu acordasse e você estivesse na cozinha fazendo café.
Quanto tempo faz? Já nem sei. Mas algumas lembranças parecem tão vivas ás vezes.
Me disseram esses dias que você tinha alguém. Há muito eu já esperava por isso, mas mesmo assim doeu um pouco sabe? É que fico me perguntado se você faz as mesmas coisas que fazia pra mim. Tomara que não, aquele éramos nós, e dentro do que vivemos não cabe mais ninguém.
Não pense que eu não tive ninguém. Nada muito sério, é verdade, mas alguns já fizeram parte da vida que você deixou para trás.
Nesse tempo tanta coisa aconteceu né? Cortei o cabelo sabia? Sério! Não tão curto, é verdade, não consigo ter coragem.
Emagreci, engordei, emagreci de novo. Culpa tua, em parte.
Parei de fumar. Muito embora esteja fumando nesse exato momento, mas entenda, é como te amar: um vício que não tem como ser esquecido de uma vez. Mas juro que aos poucos eu consigo acabar com o vício. Com os dois: o cigarro e você.
Acho que é isso, está anoitecendo, e a urgência está passando.
Não me esquece, que eu não te esqueci.
Me escreva também um dia – somos tão antiquados não é?
Mas me escreva.
Ou ao menos pense em mim com carinho, quando ouvir aquela música e se lembrar do que deixamos para trás.